Preciso jogar suas fotos fora

Preciso jogar suas fotos fora antes que eu as encontre daqui vinte anos. Antes que eu as depare, perdidas no meio das páginas de um livro que lemos juntos. O susto de ver a si mesmo, num outro dia que foi muitos, frio, mas luminoso, um passado inteiro a mudar de assunto, a esconder a indagação, se os olhos da moldura pudessem ver os meus, fundos e sem perdão, a questioná-los: quem são? Antes que sóis e luas passem e o cheiro das damas da noite mude no percurso morno de verão: preciso jogar. Preciso me livrar, antes que elas me surpreendam e me contemplem de volta como o abismo. Preciso evitar o susto, o sismo, de daqui a uns vinte anos quando todos os planos dariam e não deram, depois que os caminhos se bifurcaram no labirinto do tempo. Os retratos, ermos nas paredes, frutos não vingados, colhidos para a reclusão no guarda-roupa, atrás das peças de inverno, sem luz, sem gesto terno. Preciso me livrar desses dois olhares encantados, dos sorrisos congelados, da posteridade do olhar, dessas duas decepções a se contemplar. Tenho que jogar fora a eternidade, antes que complete duas décadas de idade, antes que seja tarde.

Como abraçaria meu Brasil

Ah, meu Brasil, meu Brasil criança,
que vontade que eu tinha de abraçar você,
nos pontos de ônibus lotados,
nos portões de escola às sete da manhã,
estudantes a esperar que sejam abertos,
na saída das missas, no intervalo da fábrica.

Nos engarrafamentos e em estradas que dão em lugar algum.
Talvez em alguma cidade bem pequena,
destas em que você diz bom dia e o outro responde.

E daí, saída do nada, uma vaca.
Uma vaca brasileira contempla a névoa da manhã
com olhos plácidos e brasileiros.

Um cão brasileiro passa também
atrás de uma árvore para mijar.

Ah, meu Brasil, meu Brasil criança, que abraço eu daria.

Como o sol abraça suas praias,
seus planaltos e cada reentrância de pedra
por onde a luz, brasileira, consegue penetrar.

Um abraço que abrace o longe e que abrace o perto,
como as cartas, tão raras hoje em dia,
do filho estudando na metrópole para a mãe analfabeta.

Ah, meu Brasil, meu Brasil criança,
mais que pátria mãe, nação filha, terra fugidia
e indefinível nos parentescos de primeiro grau.

Como o embalaria, na voz do violeiro
que, mesmo virtuoso, jamais será conhecido, mas existe.
E que é triste, não por isso,
mas porque canta canções tristes.
Mas é feliz de vez em quando.

Como amaria você, meu Brasil criança,
nos cabelos da moça que passa todo dia,
perdida em pensamentos de coisas brasileiras.
O que é isso que ela pensa e o que poderia eu saber?
Se não entendo o Universo,
como poderia entender esse Brasil.

Como abraçaria meu Brasil, meu Brasil criança,
no prédio que alguém ergueu
vendendo barato um tempo brasileiro
de um brasileiro a um dinheiro sem pátria e sem substância.

Na capa de tinta e reboco e fuligem e poluição,
expressão abstrata, dura e suja
das mãos e dos calos que não estão mais ali,
mas num bairro distante,
bem longe das coisas que só o dinheiro pode comprar.

Nos velórios, no morto, na lápide, abraçaria.

Até nas grades, abraçaria.
As barras de culpas diferentes para indecências iguais.
Os méritos de merecedores por indecências maiores e invisíveis.

Pra mim, não. Pra mim, não. Abraço os não merecedores.

O Brasil, meu Brasil criança, é inocente.
Ele sabe bradar mas não sabe o que quer.

Como abraçaria, nos hospitais e padarias,
na gaze e no pão e na espera pra ser atendido.

O Brasil, esta invenção de 8 milhões de quilômetros quadrados,
com 200 milhões de almas enfiadas necessitadas de abraço,
para fazerem tudo com elas, menos abraçar.

O Brasil, meu Brasil criança,
milhares de milhares de desamparos
violentados com constância e disciplina militar,
com a sanha do vício, com a mão fechada da ganância.

Meu Brasil, meu Brasil, meu Brasil criança,
que confronta em si mesmo e que contraria a si mesmo,
que quer e não quer e que chora e que ri ao mesmo tempo
e que esperneia, como o cão que corre atrás do rabo,
como o desenho animado que desfere socos contra a própria cara enquanto o outro já está fora da briga a lhe apalpar os bolsos.

Abraçaria meu Brasil, nas mulheres e homens que morrerão amanhã, não importa o motivo, violento ou não.

Naqueles que se acham governados,
mas que seguem suas vidas desgovernadas,
como sem freios e na ladeira,
como sempre foram com este ou aquele governo.

No fundo, o desamparo não muda,
o desamparo tem sido o partido único do meu Brasil criança,
como o desamparo daquele que esperou a justiça,
mas morreu antes.

Nas mães, nas filhas, nas que não têm nem mãe nem pai.
Nelas, abraçaria.
Nos bichos, nas árvores, na lama, no pó,
nas casas e, ao relento, os que foram desabrigados.

Na riqueza e na pobreza, como nos matrimônios,
e abraçaria os noivos.

Na velhice, o passo lento abraçaria.

Nos adjetivos e nos substantivos concretos e abstratos,
sim, até no que não é de pegar e que não é abraçável
e nas palavras que foram inventadas aqui nesta terra por anônimos.

Abraçaria a lágrima,
as calças sujas,
o uniforme puído, pois é o único que tem para trabalhar,
o sapato furado.

No ar, na nuvem.

Como abraçaria meu Brasil, meu Brasil criança, pátria mãe, nação filha, que não se define por parentescos de primeiro grau.

Como abraçaria meu Brasil.

Finalmente

Privatizaram a opinião pública.

Amizades e memória

Pessoas amigas são esta extensão de nossa memória, dos fatos que preferimos esquecer – a fim de acharmos que somos melhores do que realmente somos – e dos acontecimentos bons que, por falta de espaço, tempo e capacidade de armazenamento não cabem em nossas próprias lembranças e cujo esquecimento, por vezes, nos faz acreditar que somos piores do que realmente somos. As amigas são a nuvem – clara, sortida, macia, energizada – de nós mesmos.

Protegido: O peixe comeu minha cabeça

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Certos amores são como taxistas

Certos amores são como taxistas que levam o passageiro para fazer um tour pelo paraíso mas o largam no inferno.

O que é o amorrrrr

Amamos pessoas que têm neuroses que encaixam nas nossas.

Jaula imaginária

A jaula imaginária dela era tão intensa que, quando teve que seguir adiante sozinho – pois ela decidira ficar ali encarcerada -, ele prendeu o pé nas grades durante algumas semanas.

Feliz Natal?

Nada mais democrático que os votos de festas de fim de ano, que permitem que até aqueles que, por gestos, comportamentos e atitudes, provocam grande infelicidade possam, por palavras, desejar um Feliz Natal a todos. Eu desejo a você e a mim que tenhamos um 2015 em que sejamos capazes de chegar a dezembro sem precisar de lugares comuns e palavras vazias, pois tudo foi dito e, acima de tudo, feito ao longo dos outros meses e, assim, contemplemos mudos e de fato felizes as luzes, os presentes, os enfeites e o amor verdadeiro: aquele que não se diz, mas se realiza.

Red Bull te dá asas

Acabei de saber que o Red Bull começou como um “tônico” para manter acordados os trabalhadores da construção civil na Tailândia. Considerando que a ideia de “trabalhadores da construção civil que precisam ficar acordados na Tailândia” – o que não sugere as melhores condições de trabalho – e o fato de eles trabalharem nas alturas, o slogan “Redbull te dá asas” passou a fazer mais sentido.

Zoológico

Por vezes, sou como um bicho selvagem pra lá e pra cá na jaula do pensamento.

Ansiedade

Uma das definições de ansiedade: reação negativa ao fato que que não temos controle sobre todos os eventos de nossa vida ou reação negativa ao fato de que, quando se tem excessivo controle sobre tudo, esse controle está sendo perdido.

Todos merecem o melhor

Relacionar-se afetivamente com pessoas doentes deixa você doente também. Pergunte aos familiares de drogadictos, que, muitas vezes, não têm opção (já fui familiar de uma, meu pai). Elas merecem o melhor, mas deixe-as para os especialistas em saúde. Parece cruel, mas não é. É uma questão de autopreservação sua e de cura da outra.

Autocompaixão e autopiedade

Autocompaixão é diferente de autopiedade. A autocompaixão pressupõe uma ação efetiva, às vezes de aparência dura, tomada por você mesmo no sentido de tirar você da merda da autopiedade.

Automobilisticamente desatualizado

Atualmente, posso dizer de boca cheia: não sei diferenciar os modelos ou marcas de carro uns dos outros. Divido os veículos entre os que são e os que não são Kombi.

Protegido: Lista de newsletters por ordem cronológica, da primeira à última

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Vícios 2

O que nos envenena não são os venenos, as paixões e os vícios, mas esta sede insaciável por dopamina que nos consome.

Vícios 1

Os vícios são os desejos fáceis de realizar que abraçamos para compensar nossa incompetência em realizar os difíceis.

Tentativa infrutífera de haikai #1

Sexta-feira, dia findo. Vejo, da janela, tudo que restou dela, o sereno que vem caindo.

Relatividades

Água fervendo apaga fogo mas também queima.

Mensagem não recebida

Sabe aquelas tremidinhas involuntárias que às vezes dá na pálpebra? Eu sempre penso que meu corpo está querendo dizer algo e acho uma pena não saber Código Morse.

Mamãe, eu quero ir a Cuba, quero ver a vida lá. Mamãe, eu quero ir a Cuba e quero voltar

Brasileiros ameaçando ir morar em Miami com medo de o Brasil virar uma Cuba. Eles sabem que tem uma colônia cubana por lá? Só informando.

Oportunidade

Onde vemos as cruzes do ebola, esteja certo que há aqueles que já veem cifrões.

Ornitolinho

Ornitorrinco ingênuo.

Hipopóstumo

O hipopótamo pós-lápide.

Considero uma dúvida válida

Aqueles filmes em que o personagem fica obcecado por algum tipo de teoria da conspiração e começa a colar recortes de jornais na parede. 1. Que tipo de gente ainda compra jornais? 2. Ele não conhece o Pinterest?

Murrica

A “ideia” de Estados Unidos da América é tão megalômana que toma-se por lá o nome do continente todo, América (o que inclui a do Norte, Central e a do Sul), para designar tão somente aquele país. E alguns dos caipiras de lá ficam ofendidíssimos se alguém diz que, por exemplo, Bolívia também é América.

Pelo esforço

Pode-se diferenciar o vício da virtude pela quantidade de esforço envolvida na satisfação provocada por um ou pelo outro.

Problemas dos novos tempos

Pessoas procurando depilação em ovo.

Os marceneiros

Fui assistir a Os Mercenários sem querer pensando que era um documentário sobre marcenaria.

Visões limitadas e limitantes do que são o feminino e o masculino

dana linn

Basta publicar uma imagem como esta da Dana Linn Bayley para que surjam imediatamente comentários dizendo o que é e o que não é feminino, geralmente de autoria de homens, dentro de padrões limitados e limitadores da normatividade. Alguns chegam a dizer que não “transariam” com uma “mulher assim”. Para este argumento, é o contrário: provavelmente ela é que não quereria você. Para os que eventualmente venham a dizer que este não é um “corpo feminino”: lamento e esta informação PODE SER CHOCANTE PRA VOCÊ, mas ninguém está no mundo para atender as suas expectativas individuais ou coletivas do que é “masculino” ou “feminino” (você vai ter que lidar com isso). Agora, se você acha que uma mulher musculosa não é uma mulher, talvez você deva olhar para seus próprios músculos, pois se esse é seu critério, se você é pouco musculoso, por sua lógica torta, VOCÊ talvez seja uma mulher (nada contra). No mais, tenho certeza de que ela ca-gou para sua opinião. Certamente, tem mais fibra, disciplina e força do que é necessário para digitar bobagens em uma caixa de comentários do Facebook.

CUIDADO!

Alguém que usa o termo “rala e rola” para se referir a uma trepada deve ter tido aulas de educação sexual com o Faustão. 

Sim que é não

Muitas pessoas não sabem dizer não: nesse caso o não pode ser ouvido no escasso entusiasmo do sim.

“É pra isso que eu quero liberdade de expressão”

Eu não entendo essas pessoas que ao mencionar “liberdade de expressão” a associam imediatamente ao direito que têm de ofender outras pessoas sem que essas tenham a mesma liberdade para expressar que estão ofendidas.

O motivo prioritário pelo qual você quer seus direitos diz muito sobre você.

O repúdio a Alex Castro

O meu amigo Alex Castro escreve, entre tantos outros sites, no da Revista Forum, sobre os temas que lhe são caros. Não tenho certeza se foi exatamente isso, mas suponho que tenha sido justamente o artigo em que ele declara não poder ter o protagonismo das causas que defende, por não ser originado dos segmentos com os quais tem empatia, que passou a ser acusado por pessoas desses mesmos segmentos de tentativa de roubar o protagonismo. Eis o artigo: Leia o resto deste post no Livros e Afins.

“Diversão”

Domingo, passei pelo Largo da Ordem, à tarde. Havia uma fila gigantesca para um lugar barulhento, lotado, visivelmente desconfortável, em que, provavelmente, ainda por cima, cobrava-se para entrar, e onde a água custa, sei lá, uns R$ 10 reais por garrafa. Havia ainda mais gente na fila, do lado de fora, que no ambiente e todos aguardavam com um aspecto de paciência bovina, inclusive os últimos a chegar (que só conseguiriam entrar dali a umas 14 horas). Era um dia lindo de sol. Ainda assim, por alguma razão, aquelas pessoas, nas poucas horas de folga que têm em suas vidas, preferiam estar naquela fila que trazia a promessa de diversão, uma promessa que só seria cumprida através da concordância coletiva (visto que, se cada um pensasse individualmente, veria que aquilo nao era divertido). Por quê? Enquanto isso, nós andávamos por ali, aproveitando o sol e até encontramos um banco para observar sentados o poente enquanto tínhamos uma conversa agradável depois de irmos à exposição de gravuras de Miró. Tudo grátis e sem fila!

E quem lustra?

Ah, tá que só campeões e chefes de estado tocam na taça. E quem lustra?

Arte

Arte tem que incomodar. Se não, é só pra combinar com o sofá e com a cor da parede.

Tristezas e umbigos

Continuamos a lida sem saber juntar as tristezas de um modo a criar alegrias compartilhadas. Embora elas pareçam incompatíveis, as tristezas, elas têm suficientemente em comum em nossa humanidade, mas nos mantemos a olhar apenas para nossos próprios umbigos.

Integridade

Integridade não é ser inteiro, mas ser capaz de expor-se ainda que faltem pedaços.

Os que discutem

Há os que abraçam uma causa – vou usar o exemplo do vegetarianismo pois sou vegetariano, mas coloque qualquer comportamento diferenciado no lugar – apenas como uma desculpa para exercer sua vontade de argumentar agressivamente com os outros por se achar com razão. Uma lição que venho aprendendo: não se discute com quem discorda de você, sobretudo agressivamente.

Há dois anos num dia frio como hoje

Há dois anos, num dia frio como hoje, perdi um pedaço. Não uma fatia, não um naco. Não um ventrículo, não um átrio do coração. Nenhuma sístole ou diástole foi negligenciada. Não perdi uma das suas muitas válvulas, ou veias, ou artérias, feixes musculares. Não o vazio da escura caverna fibrosa, não o oco quando o sangue falta, não o som surdo quando o sangue flui, não o oxigênio, o ferro e a glicose que nutrem o órgão na sua continuidade involuntária. Ou mesmo a resultante química e física do processamento orgânico dessa combustão, nem isso perdi. Há dois anos, num dia frio como hoje, perdi um pedaço e não sangrei. Não explodi em hemorragia que colorisse as paredes do aposento. Não caí e não me joguei. Foi mais como ruir para dentro. Ainda funciono, como um relógio funciona. Um relógio funciona, ainda que sem ponteiros. Mas não perdi ponteiros. Apenas não quero ver as horas. Num dia frio, como hoje, elas passam do mesmo modo como nos dias quentes. E não há novidade nisso. Perdi um pedaço e a conta dos pedaços que restaram não bate na contabilidade entre o que havia e o que, agora, há. Desmontei todas as peças, tudo se encaixa, nada sobrou e está tudo perfeito. Ao colocar na balança, falta algo e, ainda assim, o conjunto pesa mais do que no início. O que me faz concluir: seja lá o que perdi, era mais leve que o ar. Planava no peito, no sutil equilíbrio de correntes ascendentes, sem bater asas, sem propulsão. Deslizava em si mesmo, caudaloso. Não uma parte que existia, mas uma que, do nada, surgiu. Não congênita, mas adquirida, brotada, vital e viçosa, se enroscando por dentro com gavinhas e buscando o sol, enraizando-me no mundo, no lado de fora, nos outros. Ligando o ponto A interno com o ponto B externo. Como se, então, eu tivesse de aprender a andar sobre essa corda bamba imaginária com um par de pernas novo em folha e isso não fosse mau. Pois era o movimento do encontro. E, de repente, piso em falso. Não perdi, há dois anos, num dia frio como hoje, nada que eu de início tivesse, mas aquilo que passei a ter e, agora, não tenho mais. Não sou apenas a presença, mas também as lacunas, os trechos, os pontilhados, os vazados, o caule despetalado, a ponte levada pelas águas, os nomes omitidos, as pedras que não serviram para construir e voltaram para o rio, silenciosas sob as águas, a toca de bicho, abandonada, a órbita vazia sob o tapa-olho, o cômodo lacrado, a pele que sai com o curativo, tudo o que em mim também é ausência, tudo o que é silêncio, tudo o que era, não é mais e não mais será.

Nem tão raras assim

Há pessoas que são como pedras preciosas. Polidas, brilhantes e frias.

Celebridade Canalha e Sincera

– Celebridade Canalha e Sincera, o que olha primeiro uma mulher?
– Ela está de frente ou de costas?
– De frente.
– O olhar, então.

Não importa o governo

Não importa o governo, se oposição ou situação. Aqueles que têm a compulsão de reclamar o farão sempre e mais das vezes por seus motivos individuais e quase nunca coletivos. Somos um animal social, mas que pensa individual.

Mais sobre a vaia

Há a história, até onde sei fictícia, do cara que xingava o nazismo e só estava naquela porque curtia queimar gente em fornos.

O “vai tomar no cu” de R$ 1000

Gente que xinga o governo dentro do estádio, na abertura da copa que não queria e que tem dinheiro para pagar o ingresso caro.

Quando você paga um ingresso de R$ 1000 para desaprovar usando o “termo vai tomar no cu”, está aprovando ou desaprovando?

 E mais: quanto mais vezes eu digo vai tomar no cu, mais desvalorizo o termo? Digamos, se eu disse “vai tomar no cu” 10 vezes, cada um passa a valer R$ 100?

Reticências

Minha avó explicou para mim, quando eu estava aprendendo a ler, que em um texto, quando víamos reticências, poderíamos completar como quiséssemos. Não está totalmente errado nem totalmente correto, mas aquela possibilidade de liberdade textual que ela inocentemente ensinou-me me fez inventar muitas histórias dentro das histórias que eu lia.

Ausências

Somos como as esculturas de pedra: geradas não pelo que delas ficou, mas também pelos pedaços que foram arrancados no processo. Em boa parte somos o que temos de presença. Mas o que seríamos se não fossem as ausências?

O que eu ainda amo?

Nesses dias frios e chuvosos, acabo deixando-me perturbar como no Conto de Natal, de Dickens, por amores passados, por amores presentes, por amores futuros. Agasalho-me num abraço invisível e irrecuperável e que não mais existe, buscando a temperatura certa, a temperatura que adormece. E surpreendo-me ao ver minha mão alcançando a minha própria pele, um veio desconhecido de ouro, aberto, inexplorado, desesperado por ser extraído do chão e que me leva em jornada. Vejo quem fui, quem sou, quem serei, me dou as costas em todos os tempos e tudo é espelho, mas tudo turvo, tudo suposto. De repente, percebo que é preciso muita coragem pra ser gente. E, justo agora, é tudo o que não tenho. Me percebo medroso. Porque ser gente é não saber nada e, ao mesmo tempo, fingir saber. Fingir amar, fingir odiar, desconhecendo a ação desses verbos e, ao fingir saber, amar e odiar com convicção. E entendo, então, o lamento do poeta que dizia não ser Deus, que dizia ser fraco: por que, então, me abandonaste?, indagava ele, o poeta, então, sem verbo, sem saber e até sem fingir. Amar de olhos vidrados o que o mar traz à praia, dizia. A gente precisa mesmo de alguém ou alguéns que entre, que entrem no torvelinho da alma? Preciso sim é dizer algo, dizer algo pra mim mesmo. Algo que me cure, algo que me console dessa coisa que é saber quem se é, sabendo-se ainda assim enganado e que, sob essa camada de engano, talvez haja ainda um outro ser ainda mais em carne viva. Daonde virei refém das equivocadas afirmativas acerca de quem sou? Daonde esquivei-me de tentar ser além? Preciso me exorcizar das entrelinhas que ainda não decifrei ou preciso finalmente decifrá-las, pois, sem dúvida, estão me devorando, as letras ressecadas da alma. É preciso o amor, os amores, um amor, uns amores? É impossível saber disso num dia frio e chuvoso como hoje, mas é precisamente em dias frios e chuvosos como hoje que essas perguntas são feitas, quando somos visitados pelos amores passados, pelos amores presentes, pelos amores futuros. E mesmo no escuro, mesmo com os olhos fechados, mesmo com a cabeça sob as cobertas, sabemos: eles estão ali, no quarto, a observar, como um abismo.

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