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Pensamentos, ações e balas de anis

— Você tem horário marcado?
— Horário... marcado?
— Sim, horário marcado.
— É... eu... – é claro que eu não tinha.
— Sem horário marcado realmente fica difícil...
— Bom... é que, na verdade, o que tenho para falar é muito rápido...
— Entendo – disse compreensiva diante da minha embromação. — Eu vou ver o que posso fazer. – falou enquanto teclava no computador.
Hora marcada, onde já se viu isso? Isso aqui é o quê, um consultório dentário?
— Senhor – ela me chamou. — Como o senhor se chama?
— André. Me chamo André...
— André e o que mais?
— André, pode me chamar de André que eu atendo... sem problemas...
— Falo do sobrenome...
— É... sim, claro, Melo, André Melo – disse bobamente.
É claro que ela estava falando do sobrenome. É evidente. Tantas pessoas devem passar por aqui, todo santo dia, e ela tem que ter o registro das pessoas que chegam. Escrever apenas André não diria muita coisa, afinal devem ser milhares de Andrés...
— Senhor André Melo.
— Me chame apenas de André – novamente bobamente.
— Como o senhor não tem horário marcado, pode imaginar o quão difícil fica conseguir encaixá-lo na agenda.
— Eu entendo, eu entendo... – menti.
— Imagine o número de pessoas que chega aqui todo dia e querem...
— Claro, claro, eu compreendo – bonitinha, mas ordinária, isso que ela era.
— Eu aconselharia o senhor primeiro marcar uma hora. Sei o quanto é difícil conseguir um encontro, mas...
— Peraí, peraí... você não está me entendendo – comecei a perder as estribeiras. — Eu estou precisando falar isso agora. Entendeu? Agora – disse com o dedo na mesa.
— Meu senhor, é como eu acabei de explicar...
— Meu senhor, não! Não me venha com essa história de “meu senhor”. Eu preciso falar com Ele nesse instante!
— Senhor André Melo, por favor se acalme – disse calmamente enquanto apertava o botão vermelho em baixo da mesa. — Gostaria que o senhor, por favor, se acalmasse porque logo virá alguém para atendê-lo prontamente.
— Eu só estou querendo dizer que...
— Calma, calma... – dizia fazendo sinal com os olhos.
Não me pergunte de onde eles vieram, só sei que eram dois sujeitos que me levaram até uma sala ao lado. Me colocaram em um confortável sofá, disseram que logo seria atendido e, para me acalmar, me ofereceram uma balinha azul.
Obviamente, uma montanha de pensamentos desabou em minha cabeça, afinal eu teria uma conversa com o Criador. Somente minutos depois percebi que a tal bala que me ofereceram era do sabor anis, o que para mim figura entre as coisas mais nojentas já criados pelo homem. Só perdendo para os programas de fofocas e o telemarketing.
— O senhor será atendido agora – adentrou um dos sujeitos.
Surpreendido, escondi a tal balinha asquerosa e me levantei. Como não havia lixo ou algo do gênero, só consegui pensar em jogar a bala molhada embaixo da almofada do sofá que estava. Logo em seguida, me dirigi ao local indicado.
— Muito prazer, senhor André Melo. Pode se sentar e me contar o que traz o senhor até aqui – disse diplomaticamente um senhor em uma mesa executiva.
— O se-senhor... o senhor é Deus?
— Não... não – respondeu prendendo o riso. — Na verdade sou apenas um funcionário da ouvidoria e estou aqui para atendê-lo da melhor maneira.
— Ahn... sim, entendo... Na verdade só vim aqui porque gostaria de me desculpar pela maneira que venho agindo ultimamente... – tentei escolher as palavras.
— Entendo, entendo...
— Aliás, eu não venho agindo bem quase desde que nasci. Eu sou quase uma catástrofe de comportamento.
— Calma, não seja tão exigente consigo mesmo...
— Não, é verdade. Só consigo pensar em bobagens e vivo tentando concretizá-las. Não consigo me dedicar em ações importantes e boas.
— Todos nós somos assim...
— É que às vezes nem eu me agüento. Desde que cheguei aqui, por exemplo, só consegui pensar na bela secretária da recepção. Até mesmo aqui eu...
— Relaxe, isso acontece com todo mundo. Enquanto essas idéias que considera “erradas” continuarem apenas como idéias, não é nada muito grave.
— Acha mesmo?
— Sim, é claro – disse em tom de despedida. — Preocupe-se mais com as ações.
Me levantei e dei um caloroso aperto de mão. Ele continuou falando.
— Não precisa se cobrar tanto pelas coisas que pensa. Lembre-se que controlar as ações é o primeiro passo para controlar os pensamentos – e concluiu o aperto de mão.
Nos despedimos em um clima bom. Ele tinha total razão disso, aprender a ser tolerante consigo mesmo é tão importante quanto saber ser tolerante com os outros. Essa lição valia a pena lembrar. Porém, retornei daquele sonho com a lembrança um pouco apagada, mas que voltou a mente quando notei algo estranho entre os dedos. Abri a mão e encontrei aquela bala azul de anis toda chupada grudada. Pensamentos ruins não eram uma coisa agradável, mas as ações, sem dúvida, eram muito piores.

12 de abril de 2007

 
 
 


> Pensamentos, ações e balas de anis
> Imprevisto atuando nos bastidores
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> Quase heróis e quase homônimos

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