Sobre Gabriel d’Annunzio, retirado da biografia de Isadora Duncan

Eis o que escreve a bailarina estadunidense Isadora Duncan sobre o poeta Gabriel d’Annunzio no prefácio de sua auto-biografia, Minha Vida:

Talvez Gabriel d’Annunzio seja o amante mais extraordinário do nosso tempo. Todavia, é um homem franzino e calvo e, a não ser quando o seu rosto se ilumina, difícil seria encontrar-lhe atributos de beleza. Mas quando ele fala a uma mulher que despertou o seu amor, transfigura-se de tal modo que chega a lembrar o próprio Febo-Apolo, e não foi por outro motivo que pôde conquistar as mais belas e mais célebres mulheres de seu tempo. Quando d’Annunzio ama  uma mulher, a sua alma abandona a terra e vai pairar nas regiões etéreas onde fulgura Beatriz. Por sua vez, ele faz com que cada uma das suas preferidas participe da essência divina e eleva-as tão alto que elas acabam por se acreditar verdadeiramente no mesmo plano de Beatriz que o Dante cantou em estrofes imortais. Durante certa época, em Paris, o culto de d’Annunzio atingiu a uma tal grandeza que não havia mulher célebre que não se sentisse apaixonada por ele. Por esse tempo, ele lançava sobre cada uma das suas eleitas um véu miraculoso. Então, cada uma delas se elevava acima das outras mortais e caminhava cercada de um halo resplandecente. Mas quando findava o capricho do poeta, e esta era abandonada por aquela, o véu maravilhoso desaparecia, a auréola se eclipsava e a mulher tornava à argila de que era feita. Se ela não se dava conta do que lhe acontecera, tinha, contudo, consciência de que se precipitara das alturas e, olhando para trás, ao tempo em que se transformara graças à adoração de d’Annunzio, se apercebia que nunca mais em sua vida depararia outra vez o gênio do Amor. Lamentando então a sorte que lhe coubera, de dia para dia mais se desolava, até que quem a via se perguntava: “Como foi possível que d’Annunzio amasse uma mulher assim tão comum e com uns olhos tão congestionados?” É que d’Annunzio era um amante de tal ordem que podia transformar a mortal mais vulgar e dar-lhe a aparência de um ser verdadeiramente celestial.

Na vida do poeta, só houve uma mulher que resistiu a essa prova. Ela era a reencarnação da divina Beatriz, e sobre ela d’Annunzio não precisou lançar qualquer véu, pois eu sempre acreditei que Eleonora Duse era efetivamente a Beatriz do Dante, rediviva nos nossos dias. Diante dela, d’Annunzio não pôde fazer outra cousa senão cair de joelhos, em plena adoração, e foi esta a única e beatífica experiência de sua vida. em todas as outras mulheres ele nunca achava mais do que aquilo que lhes havia dado; só Eleonora Duse se elevou acima dele, revelando-lhe a inspiração divina.

Vamos tentar ignorar o fato de esse poeta é um dos precursores do fascismo. Se alguém acerta no amor,  tem o direito de eventualmente cometer erros políticos.

Não bastasse tudo isso, em 9 de agosto de 1918, como comandante do esquadrão de caça La Serenissima, ele organizou um dos grandes feitos da Primeira Grande Guerra, liderando 9 aviões em um vôo de 700 milhas para lançar panfletos de propaganda sobre Viena além de outras aventuras dignas de um filme.

Como piloto de caça, chegou a perder um olho em um acidente.

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Apenas como possibilidade

Ela sentou-se e olhou para o seu trabalho, a grande e pesada mala verde, com todas aquelas roupas em um arranjo severamente arquitetado, de acordo com seu fino senso de organização. Dali a horas, quando chegasse a Santiago do Chile, onde passaria os próximos seis meses, ela seria desfeita, a ordem, e se reencontraria em gavetas. Iria se instalar o mais rápido possível. Na manhã seguinte estaria no avião e em no máximo uma semana alugaria um apartamento.

Brigava com aquela sensação de esquecer algo, que antecede as viagens sempre posterior ao fechar dos zíperes, quando o telefone tocou:

- Você vai mesmo? – disse ele.

- Sim. Como não?

- Tem razão. Como poderia não ir? Essa pergunta não fez o menor sentido.

- Até fez.

Ela sabia. Ela sabia o que se passava. Ou o que não se passou e agora entrava no reino paralelo das incertezas. Talvez aquilo tudo, coisas que nem chegaram a ser uma expectativa, oculto naquela pergunta tola – você vai mesmo? – jamais viesse um dia a acontecer. Muito provável que não.

- É que eu precisava falar algo – disse ele depois de uma pequena pausa, um pequeno silêncio. Não como os silêncios dos que hesitam, mas como aquele antes de um atleta iniciar sua corrida para transpor o obstáculo, como o trapezista antes de se projetar da plataforma e dar um salto mortal. Talvez ele tivesse até inspirado o ar com força antes de soltar as palavras.

- Não, não é preciso dizer. Eu sei.

Ela sabia.

Conheceram-se quando ela fez um trabalho temporário na empresa dele. Apenas um mês. Ele explicava o funcionamento dos setores e como a área em que ele trabalhava se relacionava com as outras. Detalhes técnicos.

É difícil saber como certas coisas úmidas transpiram pelos poros secos dos detalhes técnicos. Pranchetas e teclados de computador têm pouco de orgânico. Gráficos não quantificam aquilo de que, aqui, se quer falar. O desenho que se fez entre os dois não cabe no papel, não tem tinta. Um desenho feito de cortes finos em membros que não há. Por dentro.

Nada menos emocional que um clipe que une o relatório de ontem ao de hoje. Mas os trinta clipes que se seguiram bem poderiam ter sido testemunhas de uma pequena história, feita como tantas outras dessas histórias são feitas: com os gestos que ficaram presos dentro do corpo e as palavras veladas. O clipe uniria então a palavra não dita de ontem com o gesto não articulado de hoje. Começo, meio e fim, furtivos como olhares solitários, mas evidentes. A língua que umedece o lábio. A mão que passeia pela própria perna. Um lóbulo de orelha. Um tendão que se evidencia no movimento do pescoço, como corda de violino, tangível, sonora. Um certo jeito de abaixar as pálpebras ao ler um documento. Cílios.

Mas evidentes, pois o desejo solidifica o ar em volta..

- Ainda assim, é preciso que eu diga. Pelo menos agora.

- O fato de eu saber não significa que não seja importante dizer. Eu também tenho coisas a dizer – respondeu ela.

Ele namorava quando se conheceram.

- Quando nos conhecemos, eu namorava.

- Eu sei disso. Mas não é isso que você quer falar e que eu quero ouvir…

Pesquisas dizem que uma pessoa passa três quartos de sua vida a se justificar. O restante do tempo passa a cometer atos que contradizem essas mesmas justificativas. De fato, namorava na época. Apaixonado, nem passava por sua cabeça cometer qualquer ato que deixasse insegura a outra, que volta e meia perguntava se ele estava envolvido com alguém.

Quando ela, lá pela metade do mês, no meio do expediente, convidou-o: “e se fôssemos ao cinema?”, ele respondeu: “sim”. Não. Isso foi o que ele gostaria de ter respondido. Respondeu: “vamos deixar para quando seu período aqui terminar”. Achou que tinha ficado claro que as questões eram éticas, para evitar envolvimentos no ambiente de trabalho, mas as questões eram outras, as mesmas que fizeram com que ao tocar no nome dela em uma conversa com sua namorada deixasse escapar aquelas três sílabas em um tom perceptivelmente diferente. As mesmas questões que fizeram com que ele se calasse quando sua namorada, com ciúmes, disse que ela não era tão bonita pessoalmente, quando se encontraram por acaso em um parque da cidade. Disse como se aquilo fosse um alívio. Mas ela era, ela é linda, pensou, pensara, pensa ele. E doce.

- Não vá. Amo você.

- Tenho que ir. Já está tudo certo.

- …

- Mas… – disse ela depois de uma pequena pausa, um pequeno silêncio. Não como os silêncios dos que hesitam, mas como aquele antes de um atleta iniciar sua corrida para transpor sobre o obstáculo, como o trapezista antes de se projetar da plataforma e dar um salto mortal. Talvez ela tivesse até inspirado o ar com força antes de soltar as palavras – eu também te amo.

- Não vá, então – disse ele na pobreza de recursos e que só quem sente essas coisas acredita como riqueza. O amor nunca tem argumentos.

- Em seis meses eu volto.

Em seis meses ele seria outro. Em seis meses ela seria outra. Em seis meses, aquilo que os dois seriam em seis meses juntos seria o que eles serão em seis meses separados. Talvez nada.

Ele já pensava em levá-la ao aeroporto, ao menos. Ele já pensava em despedir-se com um beijo, ao menos. Ele já pensava em talvez algumas lágrimas ao ver o avião partir, ao menos.

Então ela falou. Não sem antes um silêncio. Não o que precede o trapezista que deixa a plataforma para o salto mortal ou o do atleta que se prepara para o lance decisivo. Mas o dos que hesitam.

- Tem algo. Agora sou eu quem está namorando.

E, num momento de lucidez, com outro breve silêncio, sem salto mortal, sem obstáculo a ser transposto, sem hesitação, ele respondeu.

- Não importa. Apenas como possibilidade já me enche de riquezas.

Do outro lado da linha, a grande mala verde sentiu-se em grande desordem e quase, sozinha, desarrumou-se.

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E eu nem me preocupava com isso

Eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você.

E os dias eram uma seqüência de dominós, um derrubado pelo anterior, derrubando o seguinte. Até que o último caísse da mesa para o chão.

E eu nem contabilizava o valor de cada peça. Não avaliava a distância entre a mesa e o chão ou mesmo se chão havia.

Cada uma tinha o mesmo valor. Zero de cada lado. Um de cada lado, se tanto. Um ponto branco na superfície de plástico preto e barato. O suficiente para, em um jogo, ligar uma peça à outra.

  • Leia este texto inteiro no site ParaZu, que criei para divulgar o livro de que ele faz parte

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Profanar

Ele entrou no quarto e ainda teve tempo de vê-la, com a janela aberta, colocar o segundo pé em cima da beirada e saltar. Como usava aquelas asas nas costas, da festa a fantasia, acreditou que ela tinha voado. Isso durante uma semana, em choque e sob calmantes. Mas todos a viram caída no chão. Todos foram ao funeral. Não, ela não voou.Ver um corpo que cai de tão alto é sempre algo inacreditável. Não só porque não é uma coisa que se vê todos dias ou porque é algo terrível e assustador. É que é difícil crer, pois a velocidade que ele desenvolve faz perceber que um ser humano não é tão leve quanto parece. Não somos leves. Na queda, um corpo – repleto de todos os pequenos milagres biológicos e emocionais – se iguala às coisas mais patéticas, como um saco de batatas.

Ele a viu sair pela janela do décimo-sexto andar. Ele conhecia as leis da física. Mas, assim, acima de tudo ele, não compreendia que algo tão suave, de repente, pudesse ganhar toneladas. Era portanto mais fácil acreditar que ela era mesmo um anjo. Não por ser uma alternativa sentimentalóide, digna do discurso mais piegas. Mas sim porque, naquela hora, era a única alternativa.

Depois de algum tempo, ele entendeu. Não que não houvesse entendido antes. Apenas rendeu-se à realidade e à lógica. Foi a diferença entre a sanidade e a loucura. Poderia permanecer louco e feliz ou, nem tanto, louco e conformado. Ou, o que preferiu, saudável.

Não lembrava quem devolvera as asas. Estavam ali sobre a cômoda do quarto. Não avaliou se aquilo era de bom ou mau gosto, se foram deixadas ali por bondade ou refinada maldade. A verdade é que elas o agradaram ali onde estavam. Engraçado. Não tinham se danificado depois daquilo. Estavam inteiras.

Tocou de leve aquelas penas. Eram penas de verdade. Um dia estiveram em um pássaro e talvez o pássaro tenha as tenha utilizado para voar. Teriam viajado por lugares muito distantes? Seriam pássaros especialmente criados para fazer esse tipo de alegoria? Tomara não fossem penas de galinha.

Deixou-as ali. Todo dia, quando acordava, quando abria os olhos, elas estavam onde foram deixadas. O sol refletia na brancura e ficava até difícil de observá-las enquanto devolviam aquela luminosidade do novo dia. Ele deixava-se ficar até que a vista se acostumasse. Então levantava e começava o seu cotidiano. Seguia em frente.

Passaram-se semanas até que, em uma certa noite, ele tocasse novamente as asas. Elas permaneciam macias e caladas. Percorreu-as em toda a extensão com as mãos como quem acaricia o corpo de uma mulher. Elas, tão brancas como eram antes de tudo.

E, de repente, viu-se perguntando como algo que parecia apenas uma bobagem, mais um item na loja de fantasias, podia ser tão importante agora. Como se fosse um objeto de culto. Ele não se sentia mais capaz de erguê-las dali pois tinham a densidade da mão de um deus. Aquelas asas eram um peso em suas costas.

Foi quando, nessas reflexões, entrou em uma espécie de transe e arrancou uma das penugens. Primeiro agarrou-a entre o polegar e o indicador. Fez uma pequena tração que muito sutilmente, muito devagar, aumentou. Não sentiu nem medo nem raiva nem nada. Não sentiu coisa alguma. E depois de um estalo inaudível e seco de algo que arrebenta, ali estava ela. Pequena, leve, alva e em frente aos seus olhos. Em sua raiz, não sangue, mas cola barata. Podia ver os detalhes de tudo aquilo. Segurou-a pela base e a fez rodar entre os dedos. Então caiu em si e sentiu-se um profanador.

Dormiu na sala naquela noite.

E dormiu na sala muitas outras noites. Evitava o quarto até mesmo para trocar de roupa. Ia ali o mínimo. Racionalmente ele sabia que suas atitudes não faziam o menor sentido. Mas emocionalmente não conseguia se controlar. Sentia-se doente e talvez estivesse mesmo.

Foi no carro, quando mexia em um de seus bolsos, que descobriu o que precisava fazer para se livrar daquilo. Remexia nos bolsos quando encontrou aquela penugem, a que tinha arrancado. Não era nada. Um nada desgarrado de nada. Para que algo que é tudo se torne nada, e às vezes é preciso que um tudo se torne um nada, é sempre necessária uma atitude, uma guinada aleatórea. Certos navios precisam ser queimados quando chegam ao porto para inibir a esperança do retorno.

Do escritório mesmo, telefonou e acertou os detalhes com quem lhe ajudaria. Seria no dia seguinte.

Ela chegou às oito horas, como combinado. Ele serviu um suco de caixinha. Não tinha bebidas. Além do mais ele queria estar muito sóbrio para aquilo. Queria que ela também estivesse. Embora ele não fizesse questão que ela entendesse tudo o que estava em jogo ali. Não era necessário.

Conversaram um pouco e acertaram os últimos detalhes.

Ela disse que precisava se vestir adequadamente. Ele falou-lhe que poderia fazê-lo ali na sala, pois ele também pretendia mudar de roupa e, por isso, iria para o quarto. Ela disse que tudo bem.

Estava feito e não havia retorno. O inevitável costuma vestir as pessoas de coragem. Postou-se diante das asas e despiu-se. Levantou-as e colocou-as às costas. Sentia-se como se estivesse fazendo algo errado. Estranhamente essa sensação o animou.

Esperou mais um pouco até que ela o chamasse. Admirava-se no espelho. Tinha um corpo bonito, pensou.

Na sala, encontrou-a. Uma visão alegórica do mal incorporado na beleza. Uma faixa luminosa projetada pelas luzes da cidade se deslocava irregularmente nos cabelos escuros e lisos. Mais tarde lembrou-se bem da postura de suas pernas naquele instante. Uma pouco a frente da outra. A de trás ligeiramente dobrada. Era como se estivesse pronta para avançar com aquelas botas negras e brilhantes. Estava ainda com um o mesmo soutien que ele entrevira pelo decote quando ela chegara. Rendas. E preso à cintura e aos quadris, como combinado, ela usava um pênis de borracha. Aquela mulher, podia vê-lo como mais um cliente. Ele a via como a salvação, um poema sombrio, um paradoxo ereto no deserto.

Com um sinal da sua cabeça, sem palavras, ela fez com que ele se aproximasse. Com outro sinal, dessa vez feito com o indicador, o pôs de joelhos. Na penumbra as asas resplandeciam.

No dia seguinte, já sozinho, ele olhou as olhou. Eram apenas asas e era apenas um domingo como qualquer outro. Levou-as até o banheiro, jogou um pouco de álcool, abriu a janela para não ter problemas com o cheiro e jogou um fósforo aceso. Depois de alguns minutos a observar a fogueira, limpou as cinzas e saiu para passear sob o sol.

Era um homem a andar pela calçada. Enxofre e fogo poderiam cair dos céus, como em Sodoma e Gomorra, mas ele apenas passeava e cumprimentava algumas pessoas. Não devia nada a ninguém e poderia fazer o que bem entendesse nesse mundo. Não havia peso suficiente que pudesse abaixar os seus ombros agora. Sentia-se como se voasse.

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