Às vezes sinto raiva, às vezes sinto raiva com prazer, foi o que restou de tudo, esse sentimento prazeroso de raiva que eu achava, antes, que era a última coisa que me ligava a você, mas que agora sei não me liga a você, nada me liga a você porque você morreu, porque você morreu e a última coisa que sobrou foi essa casca que eu pensava ser você, essa casca que me lembra tanto uma pessoa que eu amei e que essa casca, essa casca mesma, matou, uma pessoa que eu pensei existir, mas que hoje, pensando bem, preferia que não tivesse existido, mesmo a irrevogável cova em que jaz o cadáver de qualquer expectativa minha, preferia que não tivesse existido, porque eu sei que algo meu morreu definitivamente, e não existiu na verdade, existiram apenas as palavras que você foi capaz de dizer, construidas como blocos de madeira, aqueles com letras que as crianças usam, empilhados ao largo de alguns anos, não como quem faz na segurança da civilização, mas como quem desenha a areia da praia, sem poder olhar direito para o que escreveu por causa do sol e então abandona, sai a nado, no arrasto de uma correnteza muito forte, segue em frente, enquanto frases inteiras ficam sem leitor numa ilha deserta, sou sem ilusão agora, sem ilusão e sem casa pra onde voltar, e talvez isso seja bom, como quando alguém diz dramaticamente num filme que algo em si mesmo deixou de existir, o coração, a alma, os olhos talvez, e eu sem coração, sem alma, talvez sem olhos, sinto raiva com prazer, cagando para o que qualquer um possa pensar quanto a isso, não tenho orgulho de dizer isso, mas também não me sinto humilhado, é algo que tenho e se eu fosse manco, seria manco, se eu fosse corcunda, seria corcunda e nada mudaria isso, assim, eu sinto raiva, tenho essa raiva em mim e sinto que, de alguma forma ela me define, e só irá embora quando eu me desintegrar, da mesma maneira que a corcunda só se desintegra quando o corcunda se desintegra, assim, isso o que digo, essa deformidade de caráter, apenas é, ela existe, ela é, é inegável, sou o que sou e sei que algumas pessoas vivem sem membros, perdidos em acidentes, na guerra, na doença, no veneno, e esses membros perdidos doem, em algum lugar, eles pulsam, e mesmo não estando mais presentes eles doem, pois estão, sim, estão em algum lugar, pulsando, doendo, mas se afinal já se perdeu tudo, tudo, o que mais há a perder, não, nada, nada a se perder, então tudo vira uma grande diversão, ainda que amarga, às vezes eu me amargo, e às vezes eu sorrio, aliás com frequência e sinceridade sorrio e canto e assovio e me empolgo, mas em algum lugar latente está o amargo, e não há um dia em que eu não pense em você e não me arrependa de pensar, e então, novamente, me agarro ao prazer de sentir essa raivinha já até gostosa, que trato até no diminutivo atualmente, porque tenho um imenso carinho por ela, e como são raras as coisas por que ter carinho hoje em dia, em dias tão quentes, em noites tão claras, e me delicio nela, na raiva, não como chapinhando em poças d’água depois da chuva, mas como quem se perde num passatempo, como quem monta um quebra-cabeça e encaixa as peças erradas a martelo, invento roteiros sobre essa raivinha, fotografias, cenas, móveis, paisagens, cores, novos jogos de tabuleiro, crio um universo inteiro só com essa raivinha, essa raiva, essa raivona só para mostrar do que eu sou capaz invento um buraco negro para onde tudo, você, a raivinha, os cubos com letrinhas, a ilha deserta, o corcunda, tudo é sugado e desaparece, tudo esmagado detalhada, perfeita e irrepreensívelmente, até que só reste o verbo (como no início) e, de posse do verbo, só me reste dizer uma coisa, que é: nunca apronte com um escorpião com ascendente em áries.