A boca do lixo de Curitiba

A Vegas é a menor de todas as boates da Cruz Machado. A entrada é ornada por estátuas que imitam o estilo grego. O tamanho do lugar é um pouco intimidante. Como parece ser regra, não demora um minuto até que se esteja acompanhado. Jasmine senta-se ao meu lado e, pela terceira e última vez na noite, ofereço uma bebida a uma garota de programa. Ela me adverte que a bebida para ela vai custar caro para mim, mas isso eu já sei. Pelo visto, os clientes não fazem isso habitualmente, a julgar por seu espanto.

Os cabelos bem cuidados, a saia curta o suficiente para deixar a calcinha visível, o top insinuante, tudo isso poderia chamar a atenção. Pouca coisa se destaca, porém, tanto quanto a aliança no anelar esquerdo. “Meu marido sabe”, diz.

Divina Comédia
Elas são Brunas, Luízas, Andressas e Cláudias. A primeira que encontro nesta noite chuvosa de sábado chama-se Suzana, mas – visto que poucas, bem poucas, adotam seu nome de batismo para a labuta – bem poderia se chamar Beatriz, nome da mulher que guiou Dante pelo Paraíso em A Divina Comédia. No entanto, esta é uma das tantas casas noturnas da rua Cruz Machado, a que muitos chamariam de, em uma linguagem mais alegórica, inferninho. Mas no Inferno e no Purgatório, Dante foi conduzido pelo poeta romano Virgílio, figura algo grave e, certamente, bem menos graciosa. O fato é que, à noite, esta rua, no centro de Curitiba, se transforma totalmente, da Visconde de Nacar à catedral – seus limites mais nítidos -, passando pelo comércio habitual, pela sinagoga, pela Casa Andrade Muricy, pelo cinema transformado em bingo e pelo indigno memorial à Belarmino e Gabriela.

Depois do entardecer, os referenciais da Cruz Machado passam a ser outros.

Suzana
O primeiro desses referenciais é a Lidô (1). Mal sento, com um sorriso Suzana se oferece para ficar a meu lado. �? educado pagar uma bebida à acompanhante, hábito pouco econômico, porém. Ela pede um desses espumantes que, no comércio, são relativamente baratos. A conta ficará em R$ 27, incluida a consumação obrigatória de R$ 5.

As bebidas ali e em qualquer casa do gênero têm um preço diferenciado por duas razões. Boa parte do lucro da boate está nelas e, por outro lado, a acompanhante ganha uma comissão. O garçom, incrédulo, pergunta-me se pode realmente trazer a bebida, demonstrando não ser comum que o cliente a ofereça e sim que a garota a peça.

Enquanto esperamos nossas bebidas, Suzana me explica o funcionamento da noite, sendo, por assim dizer, uma guia durante o restante da jornada ao fim da Cruz Machado, mesmo ausente a maior parte do percurso. Em nenhum momento me pede ou oferece nada. Diplomática e boa negociante, apenas me põe à vontade, ouvindo para saber o que eu quero exatamente.

Categorias
Enquanto uma das colegas de Suzana faz seu show, dançando e tirando a roupa, ela me explica que as garotas que trabalham com sexo podem ser divididas em quatro categorias principais.

As das saunas preferem o dia, não gostam nem de beber nem do ambiente das casas noturnas.

As das boates são mais sociáveis, gostam de conversar e cativar o cliente.

As que preferem a rua, em geral, não gostam do clima competitivo das casas noturnas, em que sobram mulheres e faltam homens dispostos a desembolsar entre R$ 80 a R$ 150, ou mais até, pelo programa e entre R$ 20 e R$ 50 por um quarto. Em geral, as de rua usam drogas, seja por medo seja por que não têm estrutura para o que precisam encarar.

As mulheres que trabalham por catálogo ou através de anúncios pela internet preferem desfrutar de um horário mais alternativo, menos fixo, sem trabalhar em nenhum lugar específico. Normalmente são universitárias. Ao fim do show, aplaudimos.

Universitária
Com os R$ 5 mil que ganha em média mensalmente, Suzana paga o curso universitário, cria o filho, ajuda a mãe e investe no futuro. Sabe que não poderá viver da noite para sempre, mas ela é uma exceção.

Comprou um terreno em um bom bairro da cidade. A mãe lhe perguntou, brincando, para saber onde havia conseguido dinheiro para a compra:

– Você anda fazendo programa?.

Naturalmente, negou. De origem alemã, toda a família de Suzana é de Curitiba e a tirariam dali a tapa se soubessem.

– Se souberem que sou putinha me matam.

Certa vez, pouco antes de entrar no palco para sua performance, descobriu que um primo seu estava na platéia, na primeira fila. Através do garçom, pediu para a colega que acompanhava o moço não desgrudar dele, tomando completamente sua atenção. O sujeito não viu nada.

Marylin Monroe
Ela também faz despedidas de solteiro. A mais marcante foi uma que fez para um pessoal de uma multinacional que funciona em Curitiba. Caracterizada como Marilyn Monroe, saiu do bolo e tudo.

�? comum que grandes empresas celebrem o fechamento de negócios em boates, muito embora prefiram casas mais dispendiosas, como a Metrô ou outras ainda mais caras e reservadas. Suzana costuma trabalhar na Metrô, porém no sábado, ainda mais com chuva, o movimento lá fica fraco. Agora Suzana incrementou a carreira com um anúncio em jornal. Ela e o namorado gostaram do resultado. E ele chega a ganhar mais que ela, atendendo a casais.

Som de Cristal
Saindo dali, a próxima parada é o bar Som de Cristal. O ambiente é decadente. Bêbados e bêbadas. As mulheres não são sequer bonitas e os homens têm uma aparência ainda mais triste e suja. Dos poucos segundos que permaneço ali fica a impressão de haver uma parede chapiscada, sem acabamento, mas nem disso tenho certeza. Apenas ouvi, de um trio que entrava, duas mulheres e um homem, sobre como o lugar estava vazio. Era a chuva.

Minutos de atenções
Botecos suspeitos abrem suas portas durante toda a noite. Ali é possível comer um jesus-me-chama qualquer ou tomar uma cerveja a um preço honesto. Nas esquinas, exibe-se, para quem quiser ver, a imagem mais comum que vem à mente quando se fala a palavra prostituição: mulheres esperam quem queira pagar por sessenta minutos de atenções. Não se debruçam mais às janelas dos automóveis. Negociam à distância. Sinal dos tempos e do medo da violência.

O negócio dela é homem
Silvana, que trabalha na La Ronda, boate localizada um pouco mais à frente, prefere ir direto ao ponto. Como a primeira, de pronto, pede para sentar-se ao meu lado, mas toca e abraça o possível cliente sem cerimônia, com direito a cheiro no cangote e essas coisas todas. Depois de alguns minutos de papo, maior intimidade, ao ser perguntada sobre se faz programa com mulheres afirma categoricamente: “Meu negócio é homem”, diz, tocando o cliente, de surpresa, onde o homem é homem.

Mordidinha, só de leve
Ela vem de Santa Catarina, de uma pequena cidade perto de Tubarão. Garante que gosta do que faz, desde que o cliente seja educado e a trate bem. Mordidas e beliscões nem pensar. “Só mordidinha de leve, gostosa”, arremata, sedutora. Alguns clientes costumam usar drogas no quarto. “Pode usar, mas só se mantiver o controle”, conta. Uma vez, um começou a agredi-la, com muita vontade. Os garçons tiveram que arrombar a porta e salvar a moça.

Cheiro no cangote
Nem todas as mulheres fazem shows no palco das boates, mas não há dúvida de que as performances podem melhorar a sua arrecadação. Enquanto converso com Silvana, vejo uma mulher a fazer uma coreografia com velas e um visual meio vampiresco. Ela se pendura no teto de ponta cabeça, as pernas abertas voltadas para o público, expondo-se completamente, em uma posição difícil de descrever. Mais fácil seria fazer um desenho.

“Não faço show. Sou tímida”, diz Silvana pouco antes de, mais uma vez, dar um cheiro no cangote do cliente a fim de convencê-lo a fazer o programa. Fica bastante decepcionada ao deixar o peixe escapar. O peixe escapa.

Conselhos
Certamente, Jasmine que encontro na Vegas, alguns passos adiante da La Ronda pensa na roupa que tem que lavar no dia seguinte e na chuva. Ela tem três filhos e as primeiras rugas surgem ao redor dos olhos, afinal ninguém passa por três gestações e pelos rigores da noite impunemente. Aconselha a evitar colocar uma mulher como ela dentro de casa. Certa vez, ela e o marido saíram com uma outra garota, depois de uma festa.

“Até hoje ele é meio apaixonado”, diz enquanto alisa a aliança. “Mas está passando.” Carla explica que o clima caseiro acaba fazendo com que as pessoas confundam um pouco as emoções. Vou embora. Antes ela me faz jurar que não colocarei uma puta para dentro de casa.

O gato virou pantera
Um dos restaurantes mais democráticos da cidade, o Gato Preto, mudou de nome. Agora é Pantera Negra. Continua a servir fartas refeições aos que, depois de uma noitada, querem se alimentar. Músicos, notívagos e profissionais da noite se revesam nas mesas durante a madrugada. Para além dele que, na verdade fica na Ermelino de Leão, temos algumas esquinas mais, ponto ou não de outras mulheres, uma boate gay e mais alguma calçada vazia e sem interesse aos solitários que buscam sexo.

As ruas que atravessam a Cruz Machado são como capilares que levam tudo o que ali acontece para as imediações, com motéis de segunda categoria e mais garotas de programa esparsas.

Fim de noite
A rua, com a chegada da luz, começa a se transformar mais uma vez. Na última quadra antes da Praça Tiradentes, uma padaria abre suas portas. O primeiro cliente pede um pingado e um pão com manteiga. Não se pode afirmar, com a certeza dos puros, se ele é um daqueles que, sem encontrar o que buscava sexo, amor ou apenas companhia, morreu solitário na Cruz.

25 Comments

  1. estranho, a moça começou como Suzana e treminou como Silvana. São pessoas distintas?
    De qualquer forma, interessante o conto.

    Resposta: Oi, Barbara… trata-se de uma reportagem que fiz em uma das ruas de Curitiba. E Suzana é uma mulher e Silvana é outra. Se observar, elas trabalham em boates diferentes… Abraços! Volte sempre!

  2. Primeiramente,
    gostaria de parabenizá-lo pela qualidade literária do texto, e em segundo,
    queria saber… se tem como dar algumas informações, de uma noite dessas no total,
    desde a entrada com a consumação, até o programa em si qual o preço…

    bom,
    desde já ,
    grato.

  3. quer me conhecer

    janeiro 20, 2008 at 11:04 pm

    roubaram meu celular nessas boates que trabalho mas isso nao me impede de continuar amor.

    Jessica, Suzana e daí o que importa o nome sou sua!!!

  4. Eu também adorei o texto, muito bom….
    u.u… como todos os outros!

  5. esta sena havia de ter gajos nao era gajas .curte a vida

  6. ola li alguns trexo desses contos e adorei e gostaria de saber si e reais porque agente sente em alguma parte isso poque eu sou um cara bem vivido adorei eu achei muito bom mas acho que voce deveria si aprofunda mais em outros assuntos do cotidiano essas coizas e muito bom ok grato reponda pelo imail

  7. “Morreu solitário na Cruz” foi ótima! :D

  8. Adorei o texto, estou em pré-produção de um curta sobre a Cruz Machado, o nome será Balada da Cruz Machado.
    Procurei o autor (Alessandro Martins) no google, mas há muitas ocorrências, se o autor quiser entrar em contato comigo, seria bom trocar uma idéia.
    Saludos,

  9. paulo cesar veiga

    julho 9, 2008 at 10:28 am

    parabens gostei do texto,sou policial e tudo que disse é verdade realmente,voce teve muita coragem,de entrar num ambiente deste,sabemos que droga corre solto nesses locais,mas sabemos que muitas pessoas importantes tambem frequentam,dai a barreira para que a policia possa fazer seu serviço,mas tenho esperança que isso logo vai mudar,um grande abraço…

  10. trabalhei 6 meses no la ronda ao lado do vegas e me apaixonei pelo cumin da casa… a vida e muito comoda e vc nao se sujeitaria a trabalhar com horario marcado pra ganhar o q tira numa noite…so sai de la por q engravidei e moro com esse rapaz hoje…meu marido…nossa filha esta com 2 meses e agradeço por ter engravidado pois do contrario estaria la me drogando ou quem sabe ate debaixo da terra… tenho 19 anos e o fato ocorreu ano passado….na epoca eu era a mais cobiçada da casa talve por ser nova e ter 18 anos..nao me orgulho de escrever isso…hoje passo pela rua de dia e vejo as janelas dos quartos de tantos programas q fiz,cada parelelepipedo daquelas calçadas da cruz machado tem uma historia pra contar,quer saber mais? um dia escrevo um livro….

  11. essa silvana de quem fala e uma das mais antigas do la ronda uma boa mulher mas nem todos os homens gostam dela talvez por ser a de mais idade e nao ter aquele corpo escultural….

  12. Estava procurando uma matéria sobre prostitutas universitárias e me deparei com o site… ADOREI..rs Alguns pontos: a) Linguagem ótima no estilo Sin City – Cidade Proibida b) Descrição perfeita e educada do lado negro da noite curitibana, esta dama metida de nariz empinado que no fundo é uma messalina escondida atrás de drogas e contos pervertidos c) Consegue fazer com que mesmo pessoas que não dão opinião em sites (como é o meu caso) sejam sugadas a deixar um depoimento. Acho que vc encontrou algo… persiga-o!

  13. Alessandro Martins

    outubro 14, 2008 at 10:16 pm

    Marco Polo,

    obrigado. Tenho perseguido e continuarei e a perseguir. Nào tenho a menor intenção de agarrar ;-)

    Abraços!!!

  14. Parabens otimo texto!
    conheço bem aquela rua…

  15. o tempo passa e as histórias são as mesmas, há dez anos frequentava estes locais. O tempo parou alí!

  16. Interessante a narrativa, tenho alguma ligação com esta região e dela já fiz pano de fundo de uma fase da minha vida.
    Sem dúvida aquele ambiente indica um fim trágico e hedonista.

  17. Parabéns !!! Otimo texto , narrativa perfeita !!

    Abraço

  18. Achei todo o relato excelente. Muito bem produzido. Lamento apenas pelas mulheres que trabalham nesse ramo contra suas próprias vontades.

  19. Parabéns pelo texto e pelo blog!

  20. por que vc escreveu a boca do lixo de curitiba?ali tambem tem pessoas onestas. Que depende daquele lugar para sobreviver.vc pensa o que? Que so tem prostitutas que vende o corpo so por droga?nao tem as que no momento do ato sexual que pensa em compra o leite do seu filho a manha.paga um aluguel.pra nao ter que mendiga a sociedade.nao facil.

  21. adorei o texto, conheço cada um desses lugares que citou, é um mundo diferente, sim, alternativo, quem sabe, rsrsrs, mas que la no fundo mostra que o que existem são pessoas…e basta …o resto são convenções

  22. Cara muito bom este texto…mais devia maneirar no título A BOCA DO LIXO DE CURITIBA é meio pesado para uma cidade como esta…vlw abraços..

  23. Alessandro Martins

    janeiro 6, 2013 at 5:02 am

    Hahhahahahaha! Não, não é! Abraços!

  24. Já fui da noite e hoje sou advogada. Irônico, não?

  25. Uma pena que a Lido e o La Ronda tenham fechado….Será que a Silvana ainda frequenta a noite? A garçonete Dina faleceu e assim caminha a vida…

Por favor, seu comentário é MUITO importante.

© 2014 Alessandro Martins

Theme by Anders NorenUp ↑