Ah, meu Brasil, meu Brasil criança,
que vontade que eu tinha de abraçar você,
nos pontos de ônibus lotados,
nos portões de escola às sete da manhã,
estudantes a esperar que sejam abertos,
na saída das missas, no intervalo da fábrica.

Nos engarrafamentos e em estradas que dão em lugar algum.
Talvez em alguma cidade bem pequena,
destas em que você diz bom dia e o outro responde.

E daí, saída do nada, uma vaca.
Uma vaca brasileira contempla a névoa da manhã
com olhos plácidos e brasileiros.

Um cão brasileiro passa também
atrás de uma árvore para mijar.

Ah, meu Brasil, meu Brasil criança, que abraço eu daria.

Como o sol abraça suas praias,
seus planaltos e cada reentrância de pedra
por onde a luz, brasileira, consegue penetrar.

Um abraço que abrace o longe e que abrace o perto,
como as cartas, tão raras hoje em dia,
do filho estudando na metrópole para a mãe analfabeta.

Ah, meu Brasil, meu Brasil criança,
mais que pátria mãe, nação filha, terra fugidia
e indefinível nos parentescos de primeiro grau.

Como o embalaria, na voz do violeiro
que, mesmo virtuoso, jamais será conhecido, mas existe.
E que é triste, não por isso,
mas porque canta canções tristes.
Mas é feliz de vez em quando.

Como amaria você, meu Brasil criança,
nos cabelos da moça que passa todo dia,
perdida em pensamentos de coisas brasileiras.
O que é isso que ela pensa e o que poderia eu saber?
Se não entendo o Universo,
como poderia entender esse Brasil.

Como abraçaria meu Brasil, meu Brasil criança,
no prédio que alguém ergueu
vendendo barato um tempo brasileiro
de um brasileiro a um dinheiro sem pátria e sem substância.

Na capa de tinta e reboco e fuligem e poluição,
expressão abstrata, dura e suja
das mãos e dos calos que não estão mais ali,
mas num bairro distante,
bem longe das coisas que só o dinheiro pode comprar.

Nos velórios, no morto, na lápide, abraçaria.

Até nas grades, abraçaria.
As barras de culpas diferentes para indecências iguais.
Os méritos de merecedores por indecências maiores e invisíveis.

Pra mim, não. Pra mim, não. Abraço os não merecedores.

O Brasil, meu Brasil criança, é inocente.
Ele sabe bradar mas não sabe o que quer.

Como abraçaria, nos hospitais e padarias,
na gaze e no pão e na espera pra ser atendido.

O Brasil, esta invenção de 8 milhões de quilômetros quadrados,
com 200 milhões de almas enfiadas necessitadas de abraço,
para fazerem tudo com elas, menos abraçar.

O Brasil, meu Brasil criança,
milhares de milhares de desamparos
violentados com constância e disciplina militar,
com a sanha do vício, com a mão fechada da ganância.

Meu Brasil, meu Brasil, meu Brasil criança,
que confronta em si mesmo e que contraria a si mesmo,
que quer e não quer e que chora e que ri ao mesmo tempo
e que esperneia, como o cão que corre atrás do rabo,
como o desenho animado que desfere socos contra a própria cara enquanto o outro já está fora da briga a lhe apalpar os bolsos.

Abraçaria meu Brasil, nas mulheres e homens que morrerão amanhã, não importa o motivo, violento ou não.

Naqueles que se acham governados,
mas que seguem suas vidas desgovernadas,
como sem freios e na ladeira,
como sempre foram com este ou aquele governo.

No fundo, o desamparo não muda,
o desamparo tem sido o partido único do meu Brasil criança,
como o desamparo daquele que esperou a justiça,
mas morreu antes.

Nas mães, nas filhas, nas que não têm nem mãe nem pai.
Nelas, abraçaria.
Nos bichos, nas árvores, na lama, no pó,
nas casas e, ao relento, os que foram desabrigados.

Na riqueza e na pobreza, como nos matrimônios,
e abraçaria os noivos.

Na velhice, o passo lento abraçaria.

Nos adjetivos e nos substantivos concretos e abstratos,
sim, até no que não é de pegar e que não é abraçável
e nas palavras que foram inventadas aqui nesta terra por anônimos.

Abraçaria a lágrima,
as calças sujas,
o uniforme puído, pois é o único que tem para trabalhar,
o sapato furado.

No ar, na nuvem.

Como abraçaria meu Brasil, meu Brasil criança, pátria mãe, nação filha, que não se define por parentescos de primeiro grau.

Como abraçaria meu Brasil.