Dentistas

Dentista. Tudo branquinho. Sainha, camisa, guarda-pó, sapatos.

E aquela meia sete-oitavos arrastão.

Tudo bem que, aos 12 anos eu nem sabia que aquela meia tinha esse nome, embora eu fosse bom com frações a essa altura do campeonato. A única coisa que eu sabia é que elas terminavam antes de acabar – ou pelo menos de onde costumavam acabar, na cintura – e ficavam por ali a demarcar o final das coxas e setores menos explorados.

A primeira vez que eu vi uma cinta-liga – mais ou menos por essa época -, em uma revista de mulher pelada, pensei que a modelo tivesse colocado o sutiã errado, na altura dos quadris, de propósito, para dar um toque exótico. Eu não entendia nada de moda íntima, como se pode ver, mas o fato é que a coisa desde já mostrava que funciona. Assim que vi o arranjo, até então estranho para mim, fiquei com o pau mais duro do que o habitual. Certos fetiches são universais.

Mas ali estava eu sentadinho na cadeira. Com aquele ar inocente e de boca aberta. E como ela queria que eu ficasse depois de vê-la levantar-se para ir pegar minha ficha na outra sala? O tempo de ela ir, com aquela bunda redondinha para lá e para cá naquele tecido justo, e voltar com aquele ar desinteressado para cuidar de meus dentes foi o suficiente para pensar milhões de coisas.

Quando finalmente colocou a mão em minha boca, que loucura.

Nunca gostei de dentistas homens. E até hoje, embora já saiba distinguir com uma precisão quase satisfatória situações eróticas de situações profissionais, sinto-me mais à vontade ao escolher dentistas mulheres para minhas vistorias dentárias periódicas.

Está bem. Devo admitir, que tenho certos pudores e certas taras a resolver no quesito boca ainda.

O fato é que quando se está sozinho com o dentista, ou a dentista, naquela sala, a situação é a seguinte. Você está deitado e ela está sentada a olhar para dentro de sua intimidade de um ponto mais alto, de uma situação de domínio. Dali, ela pode fazer o que quiser, desde lhe aplicar aquela broquinha no nervo de seu dente até lhe administrar um beijo de língua. Claro que não é bem assim. Trata-se apenas de exemplo.

Mas deve haver em um dos capítulos daquele livro oriental sobre guerras algo que diz que quem ocupa o terreno mais alto, ainda que em igualdade de forças, é o vencedor. Convenhamos que isso, somado aquele motorzinho de som irritante, um possível armamento, dá larga vantagem a quem quer que seja.

Então a única coisa que eu podia fazer enquanto ela com o espelhinho vistoreava minha dentição, já com algumas restaurações, era olhar para aqueles olhos azuis um tanto severos com relação ao que encontrava. Ela era do tipo calado.

De vez em quando eu passeava pela boca, nariz e por onde podia naquela situação um tanto imobilizadora.

Lembro de nessa ocasião tentar dar uma lambida em seu dedo antes que ele se retirasse de entre meus dentes. Deve ter sido estranho e ela deve ter imaginado que se tratava de uma cãibra ou coisa assim.

Olhou mais um pouco e finalmente:

- Está ótimo. Você só vai precisar voltar daqui a seis meses. Continue assim.

Na minha cabeça, depois daquilo reinventei várias vezes aquela história. Em algumas ela me beijava depois de se aproximar muito lentamente como quem quer ver algo de mais perto, em outras ela me aplicava um sedativo e fazia de mim o que queria, em outra eu ia atrás dela quando buscava minha ficha na sala ao lado e tocava com paixão aquelas meias fabulosas naquelas fabulosas pernas, em outra ainda ela subia sobre mim deitado daquele jeito enlaçando-me com as coxas e impossibilitando qualquer fuga – como se eu quisesse fugir, até parece… – e muitas outras variantes. Mas:

- Está ótimo. Você só vai precisar voltar daqui a seis meses. Continue assim.

Será que vem daí minha predileção por doces?

Demonstre seu carinho por meu trabalho!

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2 Thoughts.

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