Dona Baratinha, Gregor Samsa e Gafanhoto

Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes – em que seu noivo, Dom Ratão, morria afogado em uma feijoada -, Dona Baratinha deu por si em uma cama, transformada num gigantesco caixeiro viajante chamado Gregor Samsa.

Gigantesco para seus padrões, naturalmente. Para as baratas, coisas que para nós humanos têm um tamanho aceitável são, mais das vezes, enormes. Gregor nem era assim tão grande.

Antes de continuar essa interessante aventura, é preciso esclarecer que em nenhum momento do conto A Metamorfose, de Kafka, é dito que o infeliz protagonista é transformado em uma barata. O autor apenas se refere a um inseto repugnante, com casco duro e escuro. Mas do que se deduz a possibilidade de tratar-se de um indivíduo da espécie Periplaneta americana, da Periplaneta australasiae ou Blatella germanica, da Blatta orientallis ou, dificilmente, da Supella longipalpa. Das milhares de espécies de baratas que existem no mundo, apenas essas são nocivas ao homem. Justamente as que com ele convivem. O que, ao meu ver, indica que o homem é muito mais prejudicial às baratas que o contrário.

No entanto, por um descuido de detalhamento, talvez proposital do autor, o leitor também poderia, sem medo de errar, imaginar simplesmente um simpático besouro.

Mas permita-me voltar à história inicial que, como o leitor verá, nada tem a ver com o conto kafkiano. A não ser por alguns detalhes. De fato, o verdadeiro Gregor Samsa – que teve seu posto usurpado por uma personagem do imaginário popular – está na história, mas apenas no final dela. E ele não se transforma em um inseto repugnante e sim numa girafa. Lamento: entreguei o final.

Então.

Dona Baratinha percebeu que seu corpo estava coberto de pêlos. Não como os cachorros ou como os gatos. A pelagem era escassa, pobre, na maior extensão de sua nova pele, como se estivesse doente. Examinou-se e verificou que, porém, havia abundância de cabelos no alto de sua cabeça ? aquilo era uma cabeça? ? sob a dobra dos braços e entre as pernas.

Meu Deus! O que era aquilo no meio de suas pernas? Puxou rapidamente o lençol com pudor e nojo.

Certamente, esse animal em que tinha se transformado era de um galho degenerado do tronco da evolução. Nada que pudesse ser comparado ao que ela tinha sido até então: uma nobre representante de um grupo que habitava o planeta há 350 milhões de anos. Sim, 350 milhões de anos de tradição, cultura, laço de fita na cabeça e dinheiro na caixinha.

Alguém bate à porta.

- Gregor! Gregor! Não vai trabalhar hoje?

E quem era esse agora?

- Sou eu, seu pai, Gregor! Não vai trabalhar?

Depois de insistências de todos os moradores da casa sem que Dona Baratinha, agora Gregor Samsa, respondesse, concluiu que o sujeito em que tinha se metamorfoseado era quem sustentava aquele lugar. Só podia ser. Afinal estavam todos muito preocupados com o fato de ele não ter ido ao serviço no horário de costume. Isso sem que, no entanto, eles mesmos fossem para suas respectivas ocupações. Pareciam ter apenas aquilo para fazer. Ora, que arrumem eles mesmos um emprego, pensou. E puxou o lençol novamente. Agora sobre a cabeça.

Interlúdio com parábola

Uma conhecida parábola oriental diz que certa vez mestre e discípulo pediram abrigo em uma casa muito pobre, em lugar muito ermo, em terras muito distantes. A família que ali morava tinha como único sustento uma vaca muito magra, de pelo muito malhado e mugido muito fraco. Dela tiravam um leite muito ralo, um queijo muito fedido e um esterco muito ineficiente.

Ali os dois passaram a noite e, ao amanhecer, quando partiram, já um pouco distantes, tiveram uma conversa.

- Gafanhoto, o que concluiu ao conhecer essa família?

- Que talvez devessem usar o queijo no lugar do esterco, mestre.

- Não, Gafanhoto. Terá que aprender de outra forma. Quero que volte durante a noite e empurre a vaca no precipício.

- Mas?

- Não discuta, Gafanhoto. Vá e faça.

Ele foi e fez. Partiram definitivamente sem tocar no assunto nunca mais. Até a morte do mestre, o discípulo não tinha entendido a razão daquilo e levava em seu interior uma grande culpa.

Vinte anos depois, já ele mesmo um mestre, o discípulo volta a passar naquele lugar. E ficou muito triste ao ver que a velha casa que lá havia não mais existia. Achou que a família que ali vivia tivera de vender seus poucos bens e se mudar dali depois da morte da vaca, sua única fonte de sustento.

Pois em seu lugar estava um casarão de dois andares, cercado por jardins muito floridos, plantações muito férteis e rebanhos muito numerosos. Foi quando percebeu que era recebido por uma daqueles que lá vivia quando da primeira vez que por lá andou, porém agora muito adulto, com o bolso muito cheio e com um sorriso muito grande e endinheirado.

- Mas o que houve?

- Nós tínhamos uma vaquinha que nos dava tudo. Quando ela morreu, tivemos de arranjar outros meios. E descobrimos vários. Depois disso tudo mudou e o nosso tudo mudou de tamanho. Até um pequeno zoológico com animais exóticos nós temos!

E finalmente o discípulo entendeu o ensinamento de seu mestre e a partir daí passou a aplicá-lo com constância.

Porém o queijo continuava uma droga.

Enquanto isso, no quarto de Gregor Samsa?

Rapidinho, Dona Baratinha sacou qual era a daquela família. Ainda mais quando as batidas em sua porta tornaram-se mais desesperadas com a chegada do patrão que passara por ali para saber da ausência do rapaz no emprego. Naquele dia mesmo deveria partir com um carregamento grande de mercadorias para vender nas cidades das imediações. Lucro certo que serviria para pagar o salário do mês.

- Olha, esse rapaz trancado aí nesse quarto? esse rapaz está louco? – voltou a boca para a porta de maneira que Gregor ouvisse melhor – ? esse rapaz está me dando um prejuízo tremendo! Está no olho da rua!

Dona Baratinha ouviu os passos duros em direção à porta da casa, ouviu a batida forte e finalmente o silêncio que – para ser comum como aquela família – era consternado, seja lá o que consternado signifique.

Ela aguardou que o silêncio ficasse menos consternado, enrolou-se no lençol e colocou a sua cabeça, ora humana, através de uma fresta da porta que agora abrira. Com um sorriso meio bobo nos lábios olhou para todos ali: papai, mamãe, irmã, titio e seja lá quem estivesse ali. Não fazia diferença, pois os via pela primeira vez. Em silêncio todos o contemplavam e esperavam que dissesse alguma coisa, que desse explicações. Então falou:

- Bem. Acho que todos nós aprendemos uma lição disso tudo.

Dito isso, agasalhou-se melhor, enrolando-se também no cobertor e foi à rua daquele jeito mesmo. Andou, andou muito pelas ruas da cidade, até que saiu da cidade, saiu do estado, saiu do país.

Por ali, nunca mais se ouviu falar dele.

No entanto, a família que antes dependia exclusivamente daquele salário medíocre teve de se virar. Todos arrumaram empregos e até a irmã mais nova passou a se dedicar mais à música, de maneira que tornou-se uma violinista bem-sucedida e muito bem paga a cada apresentação que fazia em casamentos. A vida da família Samsa melhorou completamente.

Dona Baratinha continuou a andar enrolada em seu lençol e seu cobertor. A barba -mais daqueles pêlos que ela abominava – e as vestes incomuns lhe davam um ar sábio. Não demorou e logo ela arrumou um seguidor. De início repudiava-o, não gostava de ninguém em seu pé. Mas a insistência do sujeito – que inclusive passou a se vestir também com um lençol e um cobertor – acabou fazendo com que se acostumasse à sua presença. Nem quando ela passou a chamá-lo de Gafanhoto ele desistiu. Nada contra os gafanhotos, mas ele tinha aqueles olhos que lembravam muito um amigo seu de infância.

E Gregor?

Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si em uma cama transformado em uma gigantesca girafa. Não era exatamente uma cama, mas um viveiro exótico mantido por uma família que havia sido muito pobre outrora e que, agora, possuía animais exóticos como sinal de status.

Noticiário

Atenção, atenção, ouvintes: uma onda de assassinatos de animais assola a região. Todo cuidado é pouco. Ao que parece, a última vítima foi uma girafa de uma importante família local. O suspeito anda enrolado em um lençol e em um cobertor e atende pela alcunha de Gafanhoto. O dono do animal morto diz que acha que ele pode ter matado sua vaca há vinte anos. Antes de desaparecer o assassino fez comentários pouco abonadores a respeito do queijo ali produzido.

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