Já fodeu um cachorro?

- Já fodeu um cachorro? Digo, já teve vontade de colocar o pinto dentro de um cachorro? Meu, ela falava aquilo como se algodão egípcio despencasse de seus lábios a cada palavra. Ela tinha classe, sabe? Não parecia que falava indecências. Ela definitivamente tinha classe. Mas eu acho que era mais alguma coisa no rosto ou no olhar que no jeito de falar.

- E o cara queria isso. Foder um cachorro. Uma cadela, no caso. Foi para aquilo que me chamou ali. Queria foder uma cadela bem gostoso e bem na minha frente. O cara quase babava quando falava isso.

Ela começou a trabalhar como prostituta aos dezessete anos. Mentiu para o sujeito. Garantiu que tinha dezoito. Sabe como é, não há motivos para duvidar das pessoas nesse meio. Todos muito honestos. Com aquela cara de anjinho, toda inocente, não poderia ser mentira. O cara nem percebeu que tinha uma menor de idade na sua cara. Uma vez ela me falou que quer meter um processo nele caso descubra onde está o vagabundo. Aliciamento de menores ou coisa assim.

- Ele queria que eu chegasse perto pra ver. Que quase encostasse a cara na buceta da cadela para ver o pau entrando e saindo.

Eu acho que sei o que ele pensou. Meu. O cara sabia que nada excita mais um homem que um rostinho angelical a gemer em cima de um pinto duro. Cara, é o tipo de coisa que faz o cidadão espirrar gozo no teto só de pensar. E então ele pensou: meu, foda-se se for mentira. Vai gemer gostoso em cima de pinto duro e fazer cidadão espirrar gozo no teto de tanto tesão. E eu vou ainda ganhar muito mais grana em cima disso. De quebra, de vez em quando, ela vai ter que gemer gostoso em cima do meu pinto. Foi isso o que o cara pensou. Meu. É difícil pensar direito com a promessa de muita grana na sua frente. É difícil pensar direito com o pinto duro – aquele em que ela iria ter que gemer gostoso em cima. Com as duas coisas ao mesmo tempo é impossível. Resultado. O cara, digamos, contratou a garota. Não. Não dava para chamar de mulher. Vou dizer. Aquilo era coisa de pedófilo. Era uma garota e pronto.

- Eu olhei pra cara do cara. Tinha um bigodinho. Sabe aqueles bigodinhos fininhos que se você tivesse uma lâmina você dava um jeito de raspar na hora? Cara, se ele me deixasse raspar aquela nojeira eu fazia qualquer coisa de graça. Digo, qualquer coisa mesmo. Voltava a dar só pra poder fazer isso. Sério.

Hoje ela não dá mais. Digo, não geme gostoso em cima dos paus mais. Largou mão. Foi pegando nojo. Não de sexo. Nem dos homens. Não sei se era nojo. Era um problema. Um dia mexeu na carteira de um cliente. Um gordo. O cara deitava na cama e aquilo se espalhava pelo colchão como se ele fosse um cocô gigante de vaca. Era engraçado, ela fazia umas descrições incríveis dos caras. Esse ela me disse que esse parecia um cocô gigante de vaca. Só não era verde nem fedia tanto. Era apenas… esparramado. Então, não que tivesse nojo. Era apenas uma imagem. Ela não tinha nojo dos sujeitos. Se estavam sujos ou fedendo, mandava tomar banho antes. Mas então. Ela mexeu na carteira do sujeito. Disse pra mim que não ia roubar. Só estava curiosa. Ela encontrou a foto da família do cocozão. E era uma foto de família típica dessas que são encontradas em carteiras de cocozões gigantes. Tinha a mãe, a filha, o filho, a bicicleta, o cachorro e até a casinha branca saindo fumaça pela chaminé. Tinha tudo e tal. Na hora não pensou nada. Mas aquilo ficou na sua cabeça e cada vez que saía para a boate ou para foder um pau aquilo voltava. Enquanto gemia com sua carinha de anjo pensava nessas coisas. De verdade, começou a perder o gosto por aquilo. Nem o dinheiro fácil tinha mais o mesmo gosto. A pica entrava e ela lembrava da carteira, olhava pra carteira ou pro voluminho da calça caída no chão e ela sabia que a fotografia estava lá, com a mãe, a filha, o filho, a bicicleta, o cachorro, a casinha, a chaminé e a fumacinha branca. O foda é que fazia uns dois anos que estava naquilo. Não tinha juntado todo dinheiro que queria. Precisava pensar em alguma coisa.

- Tá. Eu topava. Desde que eu não tivesse que encostar nele, pra mim estava ok. Ele entrou para buscar a cadela. Dei uma olhada em tudo enquanto isso. Tinha uns livros. O aparelho de som era antigo, destes que acendem uma luz verde quando o rádio está ligado. E só tinha picape. Dá para acreditar? O cara não tinha toca-CD. Procurei pra ver se tinha uma música legal pra me distrair enquanto fazia o trabalho, mas só tinha música clássica. Sem letra, sabe? O primeiro disco era de um tal de Dvorak. Gostei do nome. Daí o cara chegou, me viu mexendo ali e perguntou se eu gostava de música. Meu. Ele estava com uma rottweiller. O bicho devia ter uns sessenta quilos. Procurei manter a frieza. Fiquei mais tranqüila quando vi que ela tinha uns desses negócios que eles colocam na boca pra não morder. Ainda assim era chato ficar na sala com aquele bicho rosnando pra mim. Eu disse que sim. Gostava de música. De Dvorak. Aí ele corrigiu minha pronúncia, o filho da puta. Detesto que corrijam minha pronúncia. Ele amarrou a cadela por ali e colocou o disco.

Início de interlúdio didático sobre Dvorak
Pode-se dizer que, no começo, Anton Dvorak pastou na República Tcheca, onde nasceu. Foi em 1841. Só em 1873 as coisas começaram a melhorar, quando foi premiado pela composição de um hino patriótico, em Praga. Assim, como Smetana, que o antecedeu, tinha fortes laços nacionalistas e baseava suas composições no folclore e tradições tchecos. Dvorak foi então dirigir o conservatório de Nova York. Nos Estados Unidos, foi atraído pela melodia dos índios e dos negros. Talvez daí ele tenha adquirido uma verve mais voltada para o improviso e para as rapsódias que para o formalismo acadêmico. A fase americana de Dvorak gerou polêmicas. Diziam que ele voltou americanizado e que as fontes eslavas de que bebera inicialmente já não tinham tanta importância. Ele era uma espécei de Carmem Miranda da Europa Oriental. Mas pesquisas musicológicas de Harvard concluíram o original caráter eslavo da Sinfonia n.º 9 e do Quarteto Americano. Quarteto Americano era um mero apelido para o Quarteto em Fá Maior Op. 96, composto em terras ianques. Foi enterrado em 1904 como herói nacional. Ele era uma espécie de Ayrton Senna.
Fim do interlúdio didático sobre Dvorak

Foi quando um dos caras veio com um lance de se vestir de Carmem Miranda para transar com ela que teve a idéia. Não queria mais aquele lance do jeito que estava. Então resolveu mudar. Naquela hora. E seria daquele jeito. Falou pra ele. Tá. Pode se vestir de Carmem Miranda, de diabo a quatro, do que quiser. Mas seu pinto fica longe de mim. Não vai meter esse negócio em mim, não. E pronto. Ela me contou que o sujeito chiou um pouco. Mas aceitou porque ela tinha a lábia, sabia convencer. Não era qualquer uma que ia topar aquilo. O cara botou o chapéu de abacaxi, maçãs, essas frutas, você sabe, colocou um vestido bem brilhante, colorido, um tamancão e veio. Dançou um pouco pra ela, dublou Tico Tico no Fubá, alguma coisa assim e veio pra perto. Ela só meteu a mão embaixo daquelas saias todas, anáguas, sei lá mais o quê, e tocou uma pro cara. Foi muito rápido e fácil. Ele já estava muito excitado. Gozou rapidinho. Ela só lavou a mão, pegou o dinheiro e foi embora. Daí só precisou dar esporro com o cara que a agenciava e saiu fora. Não foi difícil. Ele até parecia meio enjoado dela e tinha outras meninas novas querendo entrar na parada. Sempre tem universitárias querendo entrar na parada e é fácil um cara enjoar de uma puta nova, porque uma puta é nova até as primeiras trepadas apenas. Depois é puta velha mesmo. E sempre tem. Sempre tem universitárias lindas querendo ser putinha. Ela saiu fora e resolveu abrir seu próprio negócio. E seria assim. Montou seu site. Ali oferecia os seus serviços. Fantasias esdrúxulas e afins. Com outras palavras, claro. Mas basicamente isso. E deixava claro. Não era puta. Não era mais puta. Não metia. Não rebolava nos caralhos. Com outras palavras, claro. Mas basicamente isso.

- Meu. Aquela música era muito chata. Parecia um rio que não chegava no fim nunca. Aí o cara perguntou se eu não queria fazer um boquete antes. Eu perguntei pra ele se não tinha lido no meu site que eu não fazia aquilo. No máximo uma punhetinha, no melhor estilo ordenha, pra terminar o serviço mesmo. Ainda mais que eu sabia que ele já tinha colocado aquela pica na buceta da cadela outras vezes. No caso dele, nem punheta. Eu não havia trazido luvas, pensei. Mas não falei que era por causa da cadela. Ele podia se ofender. Essas pessoas se ofendem com coisas à toa.

A coisa mais comum que pediam a ela era fantasias que envolviam fetiches com botas. Ele me disse uma vez que eu iria ficar admirado. Era incrível a quantidade de homens loucos pra lamber uma botinha. Gostavam de chupar o salto enquanto eram chamados de cadelinha ou putinha. Gozavam fácil, fácil, assim. A coisa mais comum era isso, ela de dominadora e tal. Batendo com o chicotinho. Uns gostavam de apanhar mais, outros menos. Mas era bem usual isso. Mas tinha os mais incomuns. Os que gostavam de ser vestidos de mulher, os que gostavam que esparramassem comida, os que queriam ter o cu examinado. Ela sempre tinha luvas com ela para essas ocasiões. Um sujeito uma vez pediu para engessar a perna dela. As duas, inteirinhas. Depois de pronto e seco, tocou uma punheta olhando pra aquilo. Outro pediu para que ela cagasse em cima dele, mas ela não topou. Teve nojo. E, olha, mesmo sem esses serviços que ela não pegava, tipo o dos caras que faziam questão de foder ou de serem cagados, ela estava ganhando mais do que antes. Cobrava o dobro da hora. Era menos solicitada e lucrava mais rápido.

- Então ele prendeu a cadela mais apertado no pé da mesa. Era uma mesa dessas, cheias de rococós. Pesada. Abaixou a calça e já estava de pau duro. Acho que só de ver o cu do bicho na direção dele já ficou daquele jeito. Ainda virou o pinto pra mim. Tive que fazer que não mais uma vez. Fiz que não no ritmo da música. O tal do Dvorak. Não sei pronunciar e foda-se. Esses caras são insistentes. Ameacei de ir embora se ele fizesse de novo. Tá. Então se ajoelhou e passou um monte de KY no pinto. Sério. Uma buceta de cadela não é a coisa mais bonita do mundo. Um pinto também não. Ver um pinto de homem entrando numa buceta de cadela é desagradável. Mas ele não parecia se preocupar com isso. Foi metendo devagar. Não tive dó da cadela. O bicho parecia até estar gostando. Dava umas bufadas estranhas assim. Mas tive um pouco de asco. Asco. Asco é mais do que nojo. O acertado é que eu tinha de ver bem de perto. Cheguei perto. O cara foi puxando meu rosto. Falou pra esticar a língua. Meu isso é que eu não fazia. Será que ele tinha perdido o juízo de vez? O preço que ele pagou era só para eu olhar. Só de ele encostar em mim com aquela mão melecada de lubrificante e pelo de cachorro, me deu vontade de vomitar. Finquei a unha na mão dele e ele desistiu daquilo. Continuou a meter. Meteu, meteu, meteu. Parecia que estava no ritmo da música também. Era um rio que não acabava mais o tal do Dvorak. Não sei mesmo pronunciar essa merda.

Agora, ela tinha uns olhos azuis que vou te contar. Era como esse céu agora. Os cabelos loiros lisinhos. Já viu um anjo? Eu já.

- O cara gozou, mas parecia ser muito sem graça. Foi uma gozadinha. Uma merda de uma gozadinha. Eu quando gozo parece até que vou morrer. Nem sei se é bom. Às vezes até tenho medo de gozar de tão gostoso. Medo de morrer. É como montanha russa. A gente sabe que é legal, mas sabe que vai passar uma coisa que não sabe se vai aguentar e não tem como descer no meio. Mas o cara só deu uma gozadinha e parece que estava satisfeito. Sabe como é. O cara goza e perde o tesão. Parecia até que estava com vergonha de ter feito o que fez. Queria que eu fosse embora logo. Quase foi me empurrando pra fora. Eu já tinha pego a grana e nem tinha tirado nenhuma peça de roupa. Fui só juntando a bolsa e saindo, meio empurrada por ele. Na portaria passei no lavabo, para tirar a meleca de KY do cabelo onde ele tinha me puxado. Nem lavei, só esfreguei a toalhinha. Rosa e bordada. Coloquei dobradinha, depois, no lugar. KY tem um cheiro desgraçado de remédio. Deixei pra tomar um bom banho em casa. Daí pensei em colocar no site isso de que não encaro esse lance com bichos. Com frutas tudo bem. Com bichos não. Nem fodas, nem cagadas, nem bichos. Saí pela portaria. O porteiro olhou pra minha bunda. Os porteiros sempre olham pra minha bunda. Nem fazem questão de disfarçar. Já estava na calçada e vi aquele negócio pendurado na janela do décimo-segundo andar. Fala sério. Você já viu como fica uma cadela rottweiller de sessenta quilos depois de cair doze andares? Saí dali rapidinho. Não tinha nada a ver com aquilo. Definitivamente, nada de bichos. Nem cagadas. Nem fodas.

Pois é. Ela era linda. Ou é. Engraçado isso de falar com os verbos no passado quando se fala de alguém que não se viu mais. Eu a conheci na biblioteca, parece que estava fazendo engenharia, foi o que disse, na época. Estava atrás de um livro. Conversamos um pouco e ela gostou de mim. Eu, claro, gostei dela. Marcamos um encontro, saímos. Transávamos muito. Sim. Ela fazia isso. Não profissionalmente. Claro. Ela trepava, mas não por dinheiro. Foi por causa da foto na carteira do cocozão gigante. Mas comigo sim e provavelmente com outros também hoje, seja lá onde esteja. A última vez que a encontrei tinha uns 23 anos. Desistiu da história de diversificar e se especializou em dominação mesmo. O lance das botinhas era super usual e suficiente para garantir uma boa renda. Fez um curso para aprender a bater direito e amarrar sem danos sérios ao cliente e ficou nisso. É, tem curso pra isso sim. Tem umas senhoras que ensinam a bater sem machucar de verdade. Ou machucar de verdade sem matar ou causar seqüelas. Sei lá. Não entendo muito bem disso. Meu negócio é música. Música clássica. Trepar ouvindo música clássica. Beethoven, Bach, Smetana, Dvorak, essas coisas. Foi assim que a conheci. Quando coloquei o Dvorak no CD player ela começou a ficar enjoada e me contou a história da cadela jogada pela janela do prédio. Contou também que achava essa história de música clássica um saco e só agüentava porque gostava de mim. Mas o que a fez contar a história para mim foi o Dvorak. Como? Falar como se tivesse um jota? Ah, tá. Eu nunca soube pronunciar direito essa merda.

4 Comments

  1. Ora, ora!

    Por que não continuei frequentando este lugar hehe?

    Muito bom, Ale!

    Você é o cara! Number one, valeu!

    Nova leitora!

    Beijos! =]

  2. Realmente, vc é o cara!!!
    Suas histórias me prende do começo ao fim…. muito bom!! xD
    Agora o lance com bichos….

  3. Legal o motivo que a fez deixar a prostituição.
    Dá para ter uma idéia de como o ser humano ainda tem algo bom dentro de si, ainda que não se preocupe explicitamente com moral.
    No fundo, sabe que o melhor é ter uma família e fazer sexo com sentimento ao invés de só tesão.

Por favor, seu comentário é MUITO importante.

© 2014 Alessandro Martins

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