Não caço mais dragões

Um dragão chinês entrou pela porta do corredor, passou meu quarto, saiu pela janela em direção às montanhas da serra do mar, não sem antes me arrebatar com seu hálito de fogo, que me despertou por completo.

Corri para a varanda para vê-lo mais um pouco. Era verde com escamas vermelhas, mas a sua fuga, em direção ao sol ofuscante recém-nascido, impediu-me de ver mais detalhes, tais como se tinha marcas de nascença, se tinha quatro, seis ou oito patas, como eram suas orelhas e se tinha tiques nervosos.

Mesmo a minha afirmação quanto ao fato de ele ser um dragão chinês é mera suposição. Não tive tempo de lhe perguntar a nacionalidade. Apenas supus. Afinal parecia mais com uma serpente que com um dinossauro, como é o caso dos dragões medievais. Porém essa impressão pode estar errada. Já tive um amigo cujos pais eram chineses. Ele tinha olhos como os dos chineses, cabelo como tal e o rosto no formato respectivo. Mas era de Nauru. Logo mantive a hipótese, enquanto observava aquilo que agora, à distância, mais parecia um fiapo a se contorcer no horizonte, que podia ser um dragão chinês, mas nascido em outro país que não a China.

Foi assim que me tornei caçador de animais mitológicos.

Logo aprendi que certos sentimentos que buscamos sentir são dragões chineses.

O amor, esquimós, árvores
A linguagem é condicionada pela realidade.

Os esquimós têm umas sete ou oito palavras diferentes para designar a neve de acordo com suas características. O que para nós, não-esquimós, é apenas uma monótona vastidão branca, para eles é diversidade, uma variedade que sabem identificar, classificar, nomear e detalhar.

No entanto, conhecem pouco as árvores e, por isso, chamarão uma figueira, um eucalipto e um carvalho apenas de árvore, sem talvez perceber que há uma diferença entre elas, assim como nós em relação às diferentes neves, cujas particularidades são tão evidentes para eles.

Os esquimós estão em um mundo de neve, cercados por neve, convivendo com a neve e, por isso, a conhecem em sua diversidade. Nós não chegamos a estar cercados de árvores, mas conhecemos também suas diferenças.

Nós, esquimós e não-esquimós, no entanto, chamamos muitas coisas diferentes por um único nome: amor.

Possivelmente, em nosso convívio não haja tanto amor quanto neve no Alasca. E talvez por isso não tenhamos nomes diferentes no nosso cotidiano para cada uma de suas inúmeras possibilidades.

Quem sabe, sequer exista tanto amor quanto árvores nas grandes cidades. E há tão poucas árvores por aí.

Talvez eu veja neve. Mas na verdade é sal.

Os dragões e seus hábitos
Os dragões, sobretudo os chineses e os com ascendência chinesa, não têm hábitos. Por isso são tão difíceis de capturar.

Alguns fazem ninhos e botam ovos. Outros também fazem ninhos mas os enchem de armadilhas. Uns fazem buracos e se escondem no chão. Muitas variedades comem gente, mas haverá aqueles que preferem escargô. Trabalham à noite e durante o dia indiferentemente. Fazem serviços pesados ou intelectuais de acordo com suas inclinações. Há os bons de matemática e os bons de escrita, os que se escondem e os que olham tudo de cima em seu vôo secreto.

Certos dragões povoam as repartições públicas na hora do cafezinho. Certamente, diversos detestam esse ambiente e preferem o ar livre. Cuidam do meio ambiente e dão palestras para crianças.

Outros se dedicam a uma boa vida em alguma praia da costa espanhola sem se preocupar com o mundo. Jogar pedrinhas no lago Titicaca e fazê-las pular três vezes antes de afundar definitivamente é o seu passatempo.

Ouvi falar de um dragão que freqüentava museus. Levava sua paleta, seu cavalete e sua tela e copiava os grandes mestres. Seus trabalhos, às vezes, eram vendidos como se fossem originais. Fez fortuna.

Um deles dava aula em uma escola primária. Alguns de seus alunos aprenderam a voar escondidos. Mas quando iam demonstrar a nova habilidade para alguém não conseguiam.

Que tipo de tatuagem usa um dragão? Obviamente não tatuagens de dragões.

Obviamente, é difícil prever o próximo movimento de um dragão. Por isso desisti de ser caçador de animais mitológicos. É mais fácil se deixar capturar.

Antes disso
Tudo soa como uma doce mentira quando se ouve Elvis no carro às oito da manhã, a caminho do trabalho. Os outros motoristas passam alheios, cheios de café da manhã e apressados. As motos, regularmente, em equilíbrio se desviam do mundo entre uma fileira de automóveis e a outra.

Os cães vadios, amarelos e corriqueiros, como se não houvesse diferença entre existir ou não, observam o movimento, como se o movimento não houvesse. Talvez não haja. O movimento ou a diferença.

E no entanto, este meu casulo se move. E, lá de dentro, a voz poderosa de Elvis, que não sabia usar um cartão de crédito, se propaga, por sua vez, no vácuo. Lá fora é vácuo, onde o som não se propaga.

Dizem, Elvis era um dragão chinês. Pode ser mentira.

Uma coisa é certa. Os cães amarelos e corriqueiros sempre são dragões.

Vinicius de Moraes
Eu sempre quis saber por que os citadores de Vinicius de plantão adoram virá-lo do avesso. Dizem coisas como “que seja eterno enquanto dure”. Ora, o termo eterno diz respeito à tempo, que nos versos anteriores o poeta negou: “Que não seja imortal posto que é chama.”

O verso correto é, portanto: “Mas que seja infinito enquanto dure”. Pois infinito sim atua de forma mais geral no que diz respeito a tamanho e a abrangência.

Compreende-se, então, que fala o poeta não de um amor duradouro, mas sim gigantesco. Impossível de ser medido. Ainda que permaneça por apenas um segundo.

Não. Vinicius de Moraes não era um dragão disfarçado. Mas era bem visto nesses círculos ígneos

Notícia de última hora
A última Olimpíada registrou a participação do primeiro dragão atleta da história. Era um dragão chinês. Mas representou a delegação de Nauru.

Nunca mais foi visto.

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6 Thoughts.

  1. Oi Alessandro.
    Acho que já comentei esta historinha de dragão e você me deu uma escama de presente. De qualquer forma é bom de reler também.
    Bjos

  2. é realmente impressionante a sua sensibilidade como você vê, o mundo e usa metáforas para contar a vida cotidiana , amei simplesmente me APAIXONEI pelo seus textos! beijos

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