Nesses dias frios e chuvosos, acabo deixando-me perturbar como no Conto de Natal, de Dickens, por amores passados, por amores presentes, por amores futuros. Agasalho-me num abraço invisível e irrecuperável e que não mais existe, buscando a temperatura certa, a temperatura que adormece. E surpreendo-me ao ver minha mão alcançando a minha própria pele, um veio desconhecido de ouro, aberto, inexplorado, desesperado por ser extraído do chão e que me leva em jornada. Vejo quem fui, quem sou, quem serei, me dou as costas em todos os tempos e tudo é espelho, mas tudo turvo, tudo suposto. De repente, percebo que é preciso muita coragem pra ser gente. E, justo agora, é tudo o que não tenho. Me percebo medroso. Porque ser gente é não saber nada e, ao mesmo tempo, fingir saber. Fingir amar, fingir odiar, desconhecendo a ação desses verbos e, ao fingir saber, amar e odiar com convicção. E entendo, então, o lamento do poeta que dizia não ser Deus, que dizia ser fraco: por que, então, me abandonaste?, indagava ele, o poeta, então, sem verbo, sem saber e até sem fingir. Amar de olhos vidrados o que o mar traz à praia, dizia. A gente precisa mesmo de alguém ou alguéns que entre, que entrem no torvelinho da alma? Preciso sim é dizer algo, dizer algo pra mim mesmo. Algo que me cure, algo que me console dessa coisa que é saber quem se é, sabendo-se ainda assim enganado e que, sob essa camada de engano, talvez haja ainda um outro ser ainda mais em carne viva. Daonde virei refém das equivocadas afirmativas acerca de quem sou? Daonde esquivei-me de tentar ser além? Preciso me exorcizar das entrelinhas que ainda não decifrei ou preciso finalmente decifrá-las, pois, sem dúvida, estão me devorando, as letras ressecadas da alma. É preciso o amor, os amores, um amor, uns amores? É impossível saber disso num dia frio e chuvoso como hoje, mas é precisamente em dias frios e chuvosos como hoje que essas perguntas são feitas, quando somos visitados pelos amores passados, pelos amores presentes, pelos amores futuros. E mesmo no escuro, mesmo com os olhos fechados, mesmo com a cabeça sob as cobertas, sabemos: eles estão ali, no quarto, a observar, como um abismo.