Decálogo
- Que me seja dado, vez em quando, partir doidamente – mas de vontade própria – sem maiores explicações para que, assim, sinta mais que nunca a sua falta, descobrindo que, partir, talvez seja bobagem.
- Possa eu recusar um prato de comida que me oferece para, então, sentir fome minutos depois.
- E que eu tenha algumas noites solitárias para saber a quem pertence o lado esquerdo, ou direito, da cama.
- Alguns telefonemas não serão atendidos porque você já dorme, assim terei a chance de confessar meus sentimentos para as lagartixas das paredes.
- Embora seja claro para mim o meu desejo, que seja ele claro também para você.
- Que eu possa recostar, à noite, e sentir sua presença, mesmo não estando você aqui.
- Nenhuma delicadeza seja excessivamente delicada entre nós a ponto de não conseguirmos segurá-la entre o indicador e o polegar, como a um mamilo, sem quebrá-la.
- Nenhuma vulgaridade seja suficientemente vulgar a ponto de, na nossa intimidade, nunca deixarmos de ser uns desavergonhados.
- Que eu entenda suas renúncias e que você entenda as minhas. Mas que eu saiba inclusive renunciar ao entendimento quando ele não for possível, pois na maior parte das vezes não é.
- Que eu dê apenas aquilo que eu tenha e receba apenas aquilo que você pode dar.
Via Aspectos Diversos de um Fragmento Amoroso - Cracatoa Simplesmente Sumiu