Preciso jogar suas fotos fora antes que eu as encontre daqui vinte anos. Antes que eu as depare, perdidas no meio das páginas de um livro que lemos juntos. O susto de ver a si mesmo, num outro dia que foi muitos, frio, mas luminoso, um passado inteiro a mudar de assunto, a esconder a indagação, se os olhos da moldura pudessem ver os meus, fundos e sem perdão, a questioná-los: quem são? Antes que sóis e luas passem e o cheiro das damas da noite mude no percurso morno de verão: preciso jogar. Preciso me livrar, antes que elas me surpreendam e me contemplem de volta como o abismo. Preciso evitar o susto, o sismo, de daqui a uns vinte anos quando todos os planos dariam e não deram, depois que os caminhos se bifurcaram no labirinto do tempo. Os retratos, ermos nas paredes, frutos não vingados, colhidos para a reclusão no guarda-roupa, atrás das peças de inverno, sem luz, sem gesto terno. Preciso me livrar desses dois olhares encantados, dos sorrisos congelados, da posteridade do olhar, dessas duas decepções a se contemplar. Tenho que jogar fora a eternidade, antes que complete duas décadas de idade, antes que seja tarde.