Sapatos nos fios de luz

A coisa mais docemente surreal do cotidiano: sem dúvida que são os sapatos nos fios de luz.

Os tênis ali pendurados e inacessíveis são a parcela de irrealidade necessária à realidade às vezes chata dos pedestres.

A cada vez que deparo com um par, içado nos cabos de alta tensão como se fosse uma boleadeira urbana, faço-me inúmeras perguntas.

  • Seja lá quem fez aquilo, fez em que estado de espírito?
  • Estava sozinho?
  • Quantas tentativas antes de acertar?
  • Havia se cansado dos sapatos?
  • Estariam eles já estragados?
  • Por que sapatos e não outro objeto?
  • Quantas pessoas já terão arremessado sapatos nos fios de luz?
  • Isso é um problema para as companhias de eletricidade e telefone?
  • Depois de presos no fio, quanto tempo ficam lá?
  • É uma maneira simbólica de tirar os pés do chão?
  • Era noite ou dia quando foram arremessados?
  • O sujeito estava com um calçado novo quando o fez e assim saiu de casa de caso pensado?
  • Ou decidiu no meio do caminho e voltou descalço?
  • É proibido? Isto é: se um agente da lei me vir tentando prender sapatos nos fios de luz serei preso?
  • E, se em vez de arremessá-los, eu tentar prendê-los usando uma escada, isso também constitui algum tipo de depredação
  • Desde quando isso se tornou uma prática tão comum?

Acredito que há mais de arte e de contestador nos sapatos presos nos fios de luz do que em muitas galerias e do que na algumas instalações.

Pelo menos eu não consigo passar por eles sem que um certo fascínio se instale em mim.

Por alguma razão não consigo imaginar alguém atirando-os lá. Parece-me que simplesmente surgiram.

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14 Thoughts.

  1. Também acho o máximo quando passo por um par de tênis pendurado nos fios de alta tensão.
    Talvez seja uma espécie de rito de passagem feito por gangues de adolescentes.
    Tem algo que é mais radical do que isso…, cabides de roupa em metal atirados nos fios de alta tensão. Fiz isso uma vez quando era moleque, o resultado foi uma chuva de faíscas, pois o cabide fez o contato de um fio com o outro. Nem imaginava que isso aconteceria. Fiquei assustado, mas achei legal. O bom é que não machucou ninguém e ainda por cima ganhei uma moral com minha gangue de amigos…

  2. realmente, é a verdadeira arte de rua.

    mas acho mais plausível que o atirador não seja de fato o dono dos tênis. tenho essa impressão especialmente quando os vejo pendurados em fios de luz próximos de escolas, sabe? imagino uns dois ou três moleques querendo sacanear um outro obrigando-o a voltar pra casa de meias. pior: por sei lá quantos dias, cumprindo sua rotina escolar, o sujeito verá seus tênis ali, inalcançáveis (e “incalçáveis”), sem poder fazer absolutamente nada.

    e aí, num dia qualquer, eles desaparecem.

  3. Quem joga os sapatos nos fios de luz são os mendigos ou a rapaziada q anda pelas ruas. É tipo uma tradição entre os habitantes das ruas, pessoas só tem 1 par de sapatos, 1 calça, 1 camiseta, não tem onde guardar os seus pertences. Qdo conseguem um outro sapato, pegam o q estava sendo utilizado, amarram os cadarços opostos e jogam no fio de luz.
    É verdade!!!

  4. Ado… é a melhor explicação. Muito boa. Ainda que não fosse verdade, merecia ser. Mas faz muito sentido. E vindo de você que é um bacharel, arquiteto, comendador, engenheiro, diplomata… só posso confiar!

    Abraços do Ale!

  5. Que interessante Alessandro, domingo saí e ao voltar para casa, tinha ois pares de tenis no fio de luz da minha rua. Isso chamou a atenção e até comentei com minha irmã. Não tem como passar desapercebido.

  6. Prezado Alessandro,

    É incrível como alem de sapatos e tênis temos uma infinidade de outros objetos arremessados nos fios , mochilas, capacetes, bolsas,chinelos, etc.
    Este universo urbano é o tema do meu tabalho há 4 anos.
    Já foi selecionado para a Bienal do Triangulo, Resumo Hoje -artistas contemporaneos – instalação. Brevemente será um livro e minha tese .
    Gostei muito dos seus questinamentos sobre este tratado artistico -social urbano.

    um grande abraço.

  7. Marcelo,

    mande um link ou algum registro de seu trabalho para que eu possa divulgar em meu blog.

    Abraços do Alessandro.

  8. Danielle,

    em breve sai um link para suas aquarelas, aqui e no Alessandrolandia.com

    Beijos do Ale!

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