Tem esse papo de que antigamente o primeiro homem semi-nu que uma mulher via era Jesus Cristo pregado na cruz. Mesmo hoje, o nazareno morto no aparelho de tortura romano é uma das visões mais estimulantes que uma adolescente em iniciação erótica pode ter, na mistura que há nele de heroísmo, liderança e força, com desamparo, fragilidade e beleza viril. Não é preciso ser mulher para perceber que Jesus é muito, muito mais interessante, inteligente e carismático que qualquer galã de novela. É, assim, uma espécie de falo, dilatado nas paredes dos fundos das naves católicas. E é impossível competir assim de braços abertos. Uma mulher que escolhe desposá-lo dificilmente é dissuadida de seu intento. Talvez por isso exista tanta fantasia a respeito das freiras e noviças em geral.
Claro que eu também já tive uma freira em minha vida. Nós nos conhecemos na época em que ainda crianças vivíamos em Irati. Ela, na época, não queria ser freira nem eu queria saber dela para outra coisa que não fosse brincar de coisas inocentes.
Reencontrei-a mais tarde, muito mais tarde, quando já nem lembrava de seu nome ou que ela tinha aqueles olhinhos azuis como brilhantes. Ela reconheceu-me na hora, no entanto. Eu tinha acabado de me mudar para um bairro mais central de Curitiba para um pequeno apartamento há algumas semanas. Convidei-a para tomar um café na minha casa depois que soube que trabalhava na igreja ali perto.
O que eu não soube naquele dia, mas soube meses mais tarde quando a reencontrei, foi que ela tinha essa deliciosa, saborosa, morna, apertada e lubrificada vocação eclesiástica.
E foi assim. Ficamos meses sem nos vermos depois desse rápido reencontro, mesmo eu ali vivendo e ela ali trabalhando, a poucas quadras um do outro. Quando a vi de volta na rua, trocamos emails. Ela achava graça quando eu falava mal dos padres e os chamava de nazistas. Sempre é engraçado chamar um padre de nazista, principalmente depois daquela história da igreja fazer olhos grossos durante a Segunda Guerra Mundial. Pois continua a fazer olhos grossos para muitas coisas hoje. Mas foi nessa época que ela me contou que pensava seriamente em tornar-se freira.
E a nossa correspondência continuou na exata seqüência que há da retomada da amizade até um convite para um almoço, do convite para um almoço para um passeio à noite. Um filme, depois um jantar, o que fosse.
Vigiada de perto pela mãe, cuidadosa a ponto de descuidar, precisava voltar cedo.
Fomos direto para sua casa. No portão, dentro do carro, um beijo recusadíssimo. Depois ela perguntou:
- Estou com cara de safada?
Eu disse que não. Que podia ir para dentro sem medo de ser descoberta por sua vida desregrada. Mas menti. Ela estava com cara de safada sim. Os olhinhos azuis brilhantes falavam pelo que a boca ocultava. Talvez só fosse coisa da minha cabeça.
Deixei-a. Ficamos mais um tempo sem nos vermos. Talvez ela pensasse que se ficasse um período sem me ver eu desistisse ou então me deixasse mais louco. Independentemente do que ela achasse, segui minha vida normal.
Na Páscoa, inesperadamente deu-me um ovo de chocolate dos grandes. A Páscoa: na Sexta-Feira da Paixão os fiéis vão beijar os pés da imagem do Cristo morto, deitado em uma mesa como Che Guevara.
Mais tarde, depois do período de tempo que distancia o vento que levanta o pó e a gravidade que o arrasta de volta para os móveis, voltamos com nossas correspondências. Um dia veio com uma história de andava tensa. Ofereci massagem. Com fins terapêuticos, fique claro, garanti que estava sem segundas intenções como garantem todos aqueles que as têm. Ficou claro que ela confiava em mim, pois ela aceitou na hora como aceitam aquelas que sabem dos que têm segundas intenções fingindo não tê-las e elas não sabê-las. De tal forma que ambos acreditávamos como seres puros que se tratava realmente de uma massagem, nada mais que isso.
Tudo acertado ou não, claro ou não, eu a pegaria então numa noite em que mataria aula do cursinho. Comprei um aquecedor pois fazia frio na época.
Ela comprou um óleo do Boticário. Visto que não se passa óleo sobre camisas, camisetas e coisas do gênero, ficou claro para mim que a massagem seria, por assim dizer, mais profissional. Pobre de mim que nunca fiz cursos dessas coisas.
Ao chegarmos ao apartamento trocamos algumas palavras e, sem demora, coloquei-a sobre o tapete. Pudica, tirou a camiseta de costas para mim e deitou-se. Eu, também pudico, ajoelhei-me do lado dela, derramei o óleo nas mãos e comecei a massagem. Fiz com gosto. Sei que a maior parte das coisas que se faz a outra pessoa com prazer é, em geral, recebida com prazer. E percebi que, por isso, ela descontraía.
Ela não tinha desafivelado o sutiã. Resolvi testar as fronteiras e eu mesmo o fiz. Ela não reagiu. Nem que sim nem que não. O que era bom. Não demorou eu estava montado sobre seus quadris para, naturalmente, fazer um esforço mais uniforme sobre a musculatura de suas costas. Funcionava. Sua descontração fazia ela soltar pequenos gemidos.
Coloquei mais óleo. As mãos começavam do cóccix e iam até o alto com os antebraços sempre tocando as costas. Ao final disso, afastava os braços, como se quisesse repartir os dois lados do seu dorso.
De surpresa, ela enfiou a mão por baixo dos quadris e abriu o botão da calça para que, assim, eu tivesse acesso mais amplo e começasse aquele movimento ainda mais de baixo. Eu, naquela altura, queria ver qual era o limite de meus avanços e, mesmo assim devagar, fui em frente.
Eu poderia ir além. Porém, para fingir que aquilo não me comovia, voltei a massagear como no começo, com as mãos deslizando do cóccix para os ombros. Desta vez porém, cada vez que ia para frente aproximava o rosto das costas e deixava que minha respiração tocasse seu pescoço e sua nuca.
Só então, na medida em que ela não resistia de jeito nenhum, tornei-me mais ousado. Passei a aproximar também mais o tronco e os quadris, reclinando-me sobre ela.
O próximo passo era maior. Eu mesmo teria que tirar a camisa. E era assim porque mesmo agora, ainda nada havia sido dito além de que aquilo seria uma simples massagem. E, a partir do momento que quem aplica a massagem começa a também tirar a roupa - não há como negar - a coisa ganha um outro significado.
No entanto, joguei as cartas na mesa e fiquei eu também com o tronco nu. Agora, os pêlos de meu peito tocavam as suas costas cada vez que eu jogava meus braços à frente a lhe acariciar toda a pele. Meus lábios quase roçavam seu pescoço e era possível lhes sentir o calor e o hálito morno que escapava de propósito por entre os dentes.
Esta parte da história acaba aí. Não pretendo contar mais.
Estou certo de que às vezes é mais satisfatório deixar a imaginação em funcionamento que dissipá-la com as arestas da realidade. Que também é boa. Mas um texto, por sua vez, jamais a substitui.
De resto, direi que simplesmente a deixei em casa. Depois soltarmos o cinto de segurança, o que sempre significa um tempo a mais antes da despedida – desta vez sem beijo -, conversamos sobre muitas intimidades. A fiz confessar sobre sua vontade de ser comida por dois caras ao mesmo tempo. E disse-me isso com sincera volúpia e com essas palavras.
Também prometi que ainda faríamos isso e ela concordou sacanamente. Depois, ao fechar a porta, com o corpo debruçado e com a cabeça passando pela janela abaixada, perguntou:
- Estou com cara de safada?
Estava.
- Não, não está.
Hoje, quando a encontro na rua, com seu hábito de freira, olho para aqueles olhinhos azuis de profunda inocência e me deleito.
Para o verdadeiro sedutor, desnecessária é a concretização do ato, qual seja ele. Basta a concordância do seduzido.
Demonstre seu carinho por meu trabalho!
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rrsrsrs, bem sacana msm, e a minha imaginação foi longe oh, inda mais pq já recebi várias massagens sem segundas intenções que terminaram, onde, vc sabe…
Bjus
Resposta: Certas coisas começam sinceramente inocentes… mas existem outras coisas que também podem ser sinceras, não é verdade? Beijos!
Acho que, uma vez que uma mulher fale de/faça sacanagem (no bom sentido… rs) com um homem, ele nunca mais vai olhar para ela do mesmo jeito… Sempre acontece comigo, gente que era amigo e me olhava de um jeito antes, passa a olhar para mim com aquele sorriso enviesado do tipo “sei o que está por trás dessa carinha séria” ;o)
Bjks,
Resposta: Ah, que bom… desde que haja respeito, é bom que as coisas estejam sempre às claras entre as pessoas… clareza é tudo, não? Beijos do Ale!
voce não pensa que o seu papel nessa história foi o do sedutor, pensa?! = )
Danielle,
nessas horas eu nem penso.
Abraços do Alessandro!
cara gostaria de ser como vc, calmo e sedultor mas nao… pois hoje acabo de levar mais um bolo literalmente.ela aceitou um encontro casual , eu fui e nao estava lá. pois na quela hora quis gritar de raiva e odio, mas nao o fis porque sabia la no fundo que ela so esta curtindo com minha cara. o que posso fazer para que ela sinta-se que foi ruim o que senti, pode me ajudar porfavor pesso umildimente me ajude a pelo menos superar e partir para outra. ou melhor dar o troco…
Um jogo de sedução perfeito, de uma sacana santidade, de calmos e delicados sedutores….
Bom texto. só achei um pouco “desnecessário” por se assim dizer, o trecho inicial, mas no geral, muito legal.
aliás, parabens pelo @PinkyTheKinky
Pois é, André, obrigado!
Quanto ao trecho inicial, achei importante explicar a envergadura do rival do personagem.
Abraços!