Tá liberado quebrar tudo. Não é vandalismo. É salvaguarda de direitos através da reação e da força popular. Popularizou-se o termo recado das ruas, como se o povo fosse garoto de recado. Garoto de recado se recebe ou não se recebe. Se ouve ou não se ouve, no papel servil que nos dão com esse termo. As pessoas, as pessoas que realmente precisam dos direitos prestes a serem suavemente retirados em parcelas que vão a 20 anos, não deveriam ser garotos de recados. Desses que pacífica e bovinamente se deslocam na avenida, tirando foto com a autoridade e sendo muito bonzinhos. Porque, esses, mudar, mudar querem, desde que tudo continue o mesmo. Se possível, mais igual ao passado ainda. E balança a bandeirinha (que nunca será vermelha, mas que possivelmente foi feita na China). A gente come com a mão. Alguns de nós, quando tem comida, comem. Quando tem mão. Quando tem horário de almoço. Então, tá liberado: pode quebrar tudo. Que não é hora de dar recado. É hora de falar de perto. É hora de bater na porta do síndico. A gente quer subir pelo elevador social pra quebrar a cobertura. Porque isso não é vandalismo. Vandalismo é bolar um jeito de quebrar as coisas bem devagar, tipo em vinte anos, de maneira que não dê para culpar ninguém quando tudo estiver consumado e enquanto alguém ou alguéns embolsam a diferença da conta, a diferença entre o edifício inicial, digamos o de uma escola, e a ruína desse edifício. Entre um hospital e a ruína de um hospital. Em vinte anos, o olho humano não consegue acompanhar. Chamam isso de política, outros ainda chamam de ilusão de óptica, mas isso, isso sim, eu chamo de vandalismo. Então, pode quebrar tudo. Por mais marretas que tenhamos, jamais seremos capazes de destruir tantas coisas em um dia quanto eles, os engravatados de Brasília e de outras capitais, o farão em 20 anos, bem devagarinho. Esses gênios que transformam seu vandalismo em câmera lenta, sob a benção de seus próprios votos, em dinheiro. Uma verdadeira arte. É pornográfico esses engravatados, os santarrões, falarem de austeridade pra gente que trabalha a vida inteira e vai se aposentar à beira da expectativa de morte, sabe lá em que estado de saúde. É pornográfico. Queria ter a chance de cuspir na cara de cada um deles. Austeridade na educação de quem pode mandar o filho estudar em Paris? Austeridade na saúde para quem pode ficar no Albert Einstein? Mas de uma coisa você pode ter certeza: vai sobrar recurso, nesses vinte anos, para investir em segurança. Porque da desigualdade social nasce o medo. O medo de quem tem em relação a quem não tem. E quanto maior a diferença, maior o medo. Então, pode ter certeza de que vai ter grana para segurança, embora isso, dizem, seja de alçada estadual. Portanto, pode quebrar tudo. Está liberado. Já teve até um senador que quebrou a lei na frente de todo o mundo, talvez pelo hábito de tanto fazê-lo às escondidas, e ficou tudo lindo. Quem sabe, a gente quebrando o resto fica ainda melhor. Quebra tudo. Trata-se da salvaguarda dos direitos de quem mal sabe que pode exercê-los, direitos que podem ser perdidos antes mesmo de que esse conhecimento se dê. Quebra tudo.