Imaginar que aquele pau que aparece nos últimos frames de O Clube da Luta foi uma mensagem subliminar é típico das platéias desatentas de hoje em dia.
Ele foi deixado lá para ser aparente mesmo. A última piada do filme.
Subliminares mesmo são as quatro ou cinco vezes em que Tyler Durden – vivido por Brad Pitt – aparece. Em pelo menos uma delas, pelado.
Porém, como ninguém mais presta atenção a um filme até o final, alguém – do tipo que encontra pêlo em ovo – diz que há um pau subliminar no último segundo da fita e todo o mundo acredita que aquilo é subliminar.
Mas isso é o de menos.
Da próxima vez que você assistir a esse filme, preste menos atenção no que os personagens fazem e no que os personagens mostram e comece a ficar atento ao que eles dizem.
Não foram os atos de terrorismo dos macacos espaciais que me fizeram, ao final, sair do cinema um tanto atônito. Mas as palavras dos personagens.
A violência não estava nos socos, mas antes deles, no que os ocasionou. Nas promessas não cumpridas de Hollywood e da publicidade, por exemplo. Há pelo menos três cenas em que se fala desse tipo de frustração.
Muito cedo eu percebi que não eu não seria Indiana Jones
Você também não será.
E a busca de ser algo além continuará. Como se ser exatamente o que se é não bastasse.
Não adianta comprar milhares de gadgets.
Consumir não adianta, comer muito não adianta, trepar em excesso também não adiantará.
Nem manter a calma adianta.
Os socos trocados durante o filme são mero detalhe. Hoje em dia só muita porrada chama a atenção.
Eu sou o punho dolorido de Jack. Esse tipo de coisa.
Vide a chamada sociedade civil organizada, que só se organiza quando crimes muito, muito absurdos acontecem. Haja abaixo assinado, movimentos do tipo “Cansei”, #forasarney e afins.
Às vezes nem assim. Portanto, digamos que a narrativa promoveu o pugilato a uma espécie de gramática, um telégrafo violento. Menos de dez anos depois, porém, um tanto inócuo.
Estamos anestesiados já. O discurso permanece, no entanto.
Muito tempo depois, alguém me emprestou o livro em que se baseou o filme. Um livro de Chuck Palahniuk.
Sem querer cometer a bobagem de comparar um livro com um filme e dizer que este é melhor que aquele ou vice-versa, posso afirmar que o livro chega a ser mais divertido sob alguns aspectos. Nele, a idéia de violência como narrativa chega a se tornar graciosa.
Auto-ajuda para cidadãos à beira de um ataque de nervos
Não costumo ler muitas coisas recentes ou que estão na moda, mais por uma certa preguiça do que por preconceito. Mas confesso que, embora não sejam exatamente lançamentos, tenho buscado ler sistematicamente tudo o que saiu desse autor até o momento.
Seus livros trazem uma dose de alucinação e bizarrices que muito me divertem. Ao mesmo tempo são instigantes e bem humorados.
Seus personagens estão sempre prestes a tomar atitudes em relação às suas vidas idiotas de uma forma que dá vontade de sair correndo você mesmo para fazer algo.
É uma espécie de auto-ajuda para malucos.
Muito lúcido isso.
Além de Clube da Luta já li Cantiga de Ninar, O Sobrevivente, No Sufoco, Diário e Assombro.
Depois eu conto pra você o que achei deles.
Afinal, eu sou os dedos digitadores de Jack.
PS – Preste atenção. O nome do personagem de Edward Norton NÃO é Jack
Demonstre seu carinho por meu trabalho!
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