A coisa mais docemente surreal do cotidiano: sem dúvida que são os sapatos nos fios de luz.
Os tênis ali pendurados e inacessíveis são a parcela de irrealidade necessária à realidade às vezes chata dos pedestres.
A cada vez que deparo com um par, içado nos cabos de alta tensão como se fosse uma boleadeira urbana, faço-me inúmeras perguntas.
- Seja lá quem fez aquilo, fez em que estado de espírito?
- Estava sozinho?
- Quantas tentativas antes de acertar?
- Havia se cansado dos sapatos?
- Estariam eles já estragados?
- Por que sapatos e não outro objeto?
- Quantas pessoas já terão arremessado sapatos nos fios de luz?
- Isso é um problema para as companhias de eletricidade e telefone?
- Depois de presos no fio, quanto tempo ficam lá?
- É uma maneira simbólica de tirar os pés do chão?
- Era noite ou dia quando foram arremessados?
- O sujeito estava com um calçado novo quando o fez e assim saiu de casa de caso pensado?
- Ou decidiu no meio do caminho e voltou descalço?
- É proibido? Isto é: se um agente da lei me vir tentando prender sapatos nos fios de luz serei preso?
- E, se em vez de arremessá-los, eu tentar prendê-los usando uma escada, isso também constitui algum tipo de depredação
- Desde quando isso se tornou uma prática tão comum?
Acredito que há mais de arte e de contestador nos sapatos presos nos fios de luz do que em muitas galerias e do que na algumas instalações.
Pelo menos eu não consigo passar por eles sem que um certo fascínio se instale em mim.
Por alguma razão não consigo imaginar alguém atirando-os lá. Parece-me que simplesmente surgiram.
Demonstre seu carinho por meu trabalho!
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