AuthorAlessandro Martins

Celebridade Canalha e Sincera

– Celebridade Canalha e Sincera, o que olha primeiro uma mulher?
– Ela está de frente ou de costas?
– De frente.
– O olhar, então.

Não importa o governo

Não importa o governo, se oposição ou situação. Aqueles que têm a compulsão de reclamar o farão sempre e mais das vezes por seus motivos individuais e quase nunca coletivos. Somos um animal social, mas que pensa individual.

Mais sobre a vaia

Há a história, até onde sei fictícia, do cara que xingava o nazismo e só estava naquela porque curtia queimar gente em fornos.

O “vai tomar no cu” de R$ 1000

Gente que xinga o governo dentro do estádio, na abertura da copa que não queria e que tem dinheiro para pagar o ingresso caro.

Quando você paga um ingresso de R$ 1000 para desaprovar usando o “termo vai tomar no cu”, está aprovando ou desaprovando?

 E mais: quanto mais vezes eu digo vai tomar no cu, mais desvalorizo o termo? Digamos, se eu disse “vai tomar no cu” 10 vezes, cada um passa a valer R$ 100?

Reticências

Minha avó explicou para mim, quando eu estava aprendendo a ler, que em um texto, quando víamos reticências, poderíamos completar como quiséssemos. Não está totalmente errado nem totalmente correto, mas aquela possibilidade de liberdade textual que ela inocentemente ensinou-me me fez inventar muitas histórias dentro das histórias que eu lia.

Ausências

Somos como as esculturas de pedra: geradas não pelo que delas ficou, mas também pelos pedaços que foram arrancados no processo. Em boa parte somos o que temos de presença. Mas o que seríamos se não fossem as ausências?

O que eu ainda amo?

Nesses dias frios e chuvosos, acabo deixando-me perturbar como no Conto de Natal, de Dickens, por amores passados, por amores presentes, por amores futuros. Agasalho-me num abraço invisível e irrecuperável e que não mais existe, buscando a temperatura certa, a temperatura que adormece. E surpreendo-me ao ver minha mão alcançando a minha própria pele, um veio desconhecido de ouro, aberto, inexplorado, desesperado por ser extraído do chão e que me leva em jornada. Vejo quem fui, quem sou, quem serei, me dou as costas em todos os tempos e tudo é espelho, mas tudo turvo, tudo suposto. De repente, percebo que é preciso muita coragem pra ser gente. E, justo agora, é tudo o que não tenho. Me percebo medroso. Porque ser gente é não saber nada e, ao mesmo tempo, fingir saber. Fingir amar, fingir odiar, desconhecendo a ação desses verbos e, ao fingir saber, amar e odiar com convicção. E entendo, então, o lamento do poeta que dizia não ser Deus, que dizia ser fraco: por que, então, me abandonaste?, indagava ele, o poeta, então, sem verbo, sem saber e até sem fingir. Amar de olhos vidrados o que o mar traz à praia, dizia. A gente precisa mesmo de alguém ou alguéns que entre, que entrem no torvelinho da alma? Preciso sim é dizer algo, dizer algo pra mim mesmo. Algo que me cure, algo que me console dessa coisa que é saber quem se é, sabendo-se ainda assim enganado e que, sob essa camada de engano, talvez haja ainda um outro ser ainda mais em carne viva. Daonde virei refém das equivocadas afirmativas acerca de quem sou? Daonde esquivei-me de tentar ser além? Preciso me exorcizar das entrelinhas que ainda não decifrei ou preciso finalmente decifrá-las, pois, sem dúvida, estão me devorando, as letras ressecadas da alma. É preciso o amor, os amores, um amor, uns amores? É impossível saber disso num dia frio e chuvoso como hoje, mas é precisamente em dias frios e chuvosos como hoje que essas perguntas são feitas, quando somos visitados pelos amores passados, pelos amores presentes, pelos amores futuros. E mesmo no escuro, mesmo com os olhos fechados, mesmo com a cabeça sob as cobertas, sabemos: eles estão ali, no quarto, a observar, como um abismo.

Rearmamento

Agora estão querendo porte de arma. Achei que a carteira de motorista já tivesse esse papel.

Eu estou vestido com as roupas de Jorge e um jaleco branco

Um amigo biólogo, o André Melo, que está indo fazer pós-doutorado no Japão, disse que cientistas de verdade não são tão céticos assim. No laboratório em que ele realizava suas pesquisas, tinha uma máquina que fazia um teste dificílimo de executar que, para garantir que a coisa funcionasse, tinha uma estátua de São Jorge em cima dela.

Aí já é demais

Ainda mais questionável do que comprar o álbum de figurinhas da Copa para completá-lo é comprar para queimá-lo. Espero que, ao menos, ele tenha sido roubado do irmãozinho de oito anos.

E se o bandido que você defende tivesse matado sua família?

Se um bandido matasse minha família, claro que eu iria querer que ele fosse punido violentamente. Não procede essa questão, no entanto. Pois é esperado, é humano que o indivíduo se revolte e queira reagir violentamente contra as adversidades provocadas por terceiros. Mas a punição – sobretudo a de morte – não está nas mãos dele, mas nas da coletividade, representadas pela lei. Se aceito, promovo e incentivo a justiça com as próprias mãos, sozinho ou na diluição da responsabilidade garantida pela turba de um linchamento, estou rasgando as leis que garantem o meu próprio direito de ter um julgamento justo, caso isso seja necessário.

Evolução imobiliária

Depois do Espaço Gourmet, Espaço Zen, Espaço Movie e outros, as construtoras vão lançar empreendimentos com Espaço Tantra.

Cada vez mais cercados

segurançca

Tenho a impressão de que as pessoas andam com tanto medo, não poucas vezes infundado, que, em breve, os equipamentos de segurança valerão mais que os próprios bens a que se destinam proteger. Daqui a pouco, serão comuns as quadrilhas especializadas em roubo desses itens. Sumirá a cerca, enquanto a casa ficará intacta.

photo credit: Will Montague cc

Chico Buarque define o amor citando Montaigne

Arapuca pra coxinhas

armadilha

O mecanismo da armadilha não importa.

O importante é a isca.

Pegue um post do Facebook sobre Cuba (o tema pode ter variações), imprima, recorte e coloque na posição adequada.

Você irá capturar milhões de coxinhas.

Eles são identificáveis pelos sons característicos: “Amarra no poste”, “Bandido bom é bandido morto”, “Estamos virando um comunismo”, “Na ditadura é que era bom” e outros.

A seguir, faça o que quiser.

Bloqueie, fotografe, solte no ambiente natural etc.

photo credit: Profound Whatever cc

Atchim

Na bula: “A substância ativa de Hirudoid, o mucopolissacarídeo, é obtido por extração do trato respiratório superior de bovinos” o_O Minha avó vivia passando ranho de boi em meus roxos?

Meu tipo de humor ou tão bom quanto Carlitos ou Jacques Tati

Talvez a única forma digna de rir das outras é, quando ao dar essa risada, rimos de nós mesmas. Não existe escárnio nesse sentimento. É um riso bom, mas melancólico, porque, ao rir, admitimos nossas próprias fraquezas. É o tipo de humor que Carlitos, Charlie Chaplin, fazia. Ou mesmo Jacques Tati.

Essas imagens tiveram a sorte de cair nas mãos de alguém de olhar sensível. Ela não o colocou em um site de humor qualquer onde serviria para o riso histérico e lólico da internet (um riso entediado que só acontece na tela, mas traz um rosto impávido a frente dela).

Preferiu uma trilha sonora diferente. E, apenas com esse detalhe, conseguiu transformar o nosso olhar para algo mais próximo do dele.

Tudo é uma questão de como olhamos para o mundo.

(vídeo enviado pelo Sandro Pacífico).

Você sabe com quem está falando?

Problemas dos novos tempos

Pessoas procurando depilação em ovo.

José Ângelo Gaiarsa falando sobre sexo

gaiarsa

Encontrei estes 13 vídeos de José Ângelo Gaiarsa falando sobre sexo. Ele tem uma visão muito especial sobre sexualidade e relacionamentos que eu gostaria de compartilhar com você. Veja todos os vídeos. Eu vi. Um é melhor que o outro e é muito bom ouvi-lo expressar suas opiniões. Infelizmente, na grande parte das vezes, o que ele disser entrará por um ouvido e sairá pelo outro, principalmente daqueles que hipocritamente dirão que concordam com tudo.

Se você tem problemas com nudez

nudez

Recentemente, um link que publiquei na fan page do blog Livros e Afins no Facebook, foi tirado do ar e minha conta temporariamente bloqueada por conta disso.

O link dizia respeito a um programa da TV brasileira que trouxe, pela primeira vez, pessoas nuas para o palco sem explorar nossa carência, nossos tabus, nossos preconceitos e nossas vergonhas de forma negativa como, habitualmente, é feito com pessoas muito mais vestidas do que, na ocasião, se viu.

Sobre isso, simplesmente citarei a autora Carolyn Latteier, de uma entrevista dada por ela em junho de 2002:

“Entrevistei uma jovem antropóloga trabalhando com mulheres em Mali, um país da África onde as mulheres andam com os seios nus. Estão sempre amamentando seus bebês. E quando ela lhes contou que em nossa cultura os homens são fascinados com seios, houve um instante de choque. As mulheres caíram na gargalhada. Gargalharam tanto que caíram no chão. ‘Quer dizer que os homens agem como bebês?’, disseram.”

Os mesmos homens que agem como bebês – e também mulheres, por ato reflexo – foram os que denunciaram aquele link, então censurado.

Os mesmos que lamentam a morte de Norma Bengell, protagonista do primeiro nu frontal do cinema brasileiro, foram os que tão engenhosamente censuram o nu frontal apresentado de norma saudável na tevê brasileira. Imagine que teve gente falando em atentado violento ao pudor. Não ouvi as palavras, apenas as li, mas consigo imaginar a ênfase que a pessoa deu ao termo “violento”. Violenta é a forma como o corpo humano é enquadrado, explorado e censurado e isso não tem nada a ver com a quantidade de roupa com que ele é coberto ou não coberto.

photo credit: ruurmo cc

Diálogos que costumo ter no Messenger (publicado com autorização)

ELA – Ale

ELA – Quero compartilhar uma coisa muito louca com vc

EU – conte

ELA – Eu estava me masturbando pensando no cara que eu to saíndo

ELA – E não conseguia gozar, tentei muitas vezes no último mês

ELA – Aí enquanto eu me masturbava tentava lembrar do sexo e não me excitava

EU – aham

ELA – Aí, começaram a vir memórias na minha mente e eu deixei fluir

ELA – ele lavando louça, varrendo a casa..

ELA – Aí veio a memória dele fazendo massa de macarrão

EU – meu. vc é muito pervertida. hahahhahaahaha

ELA – aí eu comecei a gritar “ele sabe fazer, ele sabe fazer” e gozei

Tarefa ingrata

Considerando tudo o que precisa ser medido e está fora da medida, a tarefa do Inmetro é um tanto ingrata. TUDO no mundo precisa ser medido e, provavelmente, está fora de medida.

BDSM: a transgressão ensina mais que andar na linha

bdsm

Já dizia William Blake: o caminho dos excessos leva ao palácio da sabedoria. Ou coisa assim.

Quando comemos um pouco mais da conta, se somos espertos, aprendemos qual seria a conta certa. E assim por diante.

Aqueles que ultrapassam os limites, sobretudo aqueles que são impostos (seja por fatores externos e, sobretudo, por fatores internos), por fim, acabam colecionando uma porção de ensinamentos preciosos.

Daí minha simpatia (embora eu não pratique como estilo de vida) pelo BDSM (sigla que abarca termos como bondage, disciplina, dominação, submissão e sadomasoquismo).

Simpatia seja por taradice e fetichismo meus mesmo (ver meu blog Pinky the Kinky – só para maiores, please), seja por filosofia, dadas suas características transgressoras por definição.

A amiga Érica Araújo e Castro acaba de lançar o livro Rainha Sara – Um. O livro contém um relato ficcional em que uma dominadora conta como obteve o primeiro de seus dois submissos. O livro é a história dele, que ela chama de Um, por isso o subtítulo.

O livro contém a descrição do relacionamento da Dominadora Sarah e Um desde o momento em que ambos conheceram-se conversando pela internet até o momento em que acontece o encoleiramento definitivo do submisso em uma cerimônia pública. Todo o relato é recheado de cenas de práticas fetichistas envolvendo látex, saltos, cordas, algemas, velas, agulhas – sendo, na verdade, o maior fetiche retratado, o da submissão masculina.

Porém, chamou-me a atenção o seguinte trecho de caráter altamente transgressivo, que ensina uma forma diferente de encarar a beleza do corpo humano e apresento a você como convite à leitura integral do livro:

Estamos no terraço, os três – absolutamente nus.

Carne exposta a olhares famintos porque o corpo é um templo – é sagrado. Por isso deve-se sempre ver sua beleza – fugindo-se de padrões estéticos estabelecidos, já que jamais importou a construção arquitetônica do local sagrado – bucólico e pacífico como os budistas ou assustador e fora dos padrões como os construídos e/ou decorados com ossos humanos. O que sempre importou foi seu objetivo, seu uso – santo.

Assim como o corpo. A padronização estética rígida limita o acesso a templos do prazer que poderiam ser até mais livres e menos cheios de limitações do que aqueles enquadrados no desejo da maioria.

Aí, caro leitor, pergunta-me você: Não seria hipocrisia dizer que não se deseja um tipo específico de corpo? Negar que todos estamos, de uma maneira ou de outra, limitados pela estética – mesmo que esta definição venha do gosto pessoal?

Sim e não.

Tome meu caso como exemplo. Acho belos os morenos. Altos e longilíneos. De olhar penetrante. Acho belos os homens que posam em revistas.

Porém o grotesco também me atrai o olhar. O deformado, o impuro. Porque há beleza em todo templo sagrado – o que importa mesmo é que ele sirva a seu propósito. No caso do corpo, de dar e receber prazer.

Ou seja, meu gosto estético não me é limitador porque ele, em si, não é limitado. O velho, o jovem, o feio, o belo, o deformado, o perfeito, o estranho, o habitual, o masculino, o feminino – todos falam à minha alma sádica.

Porque no templo corporal concentram-se todas as nossas sensações conduzidas pelo mais potente órgão sexual – o cérebro. E o meu cérebro é livre. É hedonista.

Andar na linha tem limites, constituídos pela própria linha. Transgredir, por definição nunca tem limites.

Para comprar, entre em contato através do perfil da autora.

Leia mais sobre isso em: Uma Dominatrix Ensinando Você a Ser Livre

Uma dominatrix ensinando você a ser livre

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Dommenique Luxor é uma dominatrix profissional brasileira e, em seu livro, Eu, Dommenique (compre aqui), ela conta como se tornou uma dominadora e como, além de tudo, uniu o que sexual e pessoalmente lhe agradava a um modo de vida.

Mais do que uma história erótica, o leitor, independentemente de sua identidade sexual, encontra um convite a uma individualidade mais plena, mais livre e que vá ao encontro da verdadeira realização pessoal, não importa qual seja ela, para qual direção a sua bússula aponte.

Se você acompanha meu blog pessoal e meu tumblr Pinky the Kinky (só clique se for maior de 18 anos), principalmente se conhece meus textos mais antigos, não se surpreenderá ao saber que eu sempre fui um fetichista, principalmente no que diz respeito a látex, a botas e às mulheres poderosas e malvadas que trajam esses materiais e acessórios. Sempre fui um simpatizante do BDSM.

Se você me conhece mais ainda sabe que eu tenho um relacionamento de dominação/submissão com uma amiga muito querida, talentosa, linda, gostosa e fodona.

Então eu, de fato, tenho uma coisinha ou duas a dizer sobre o livro de Dommenique, de quem me tornei fã desde que vi uma entrevista dela no Jô Soares.

O primeiro aspecto que me agradou: trata-se de experiências reais. Além disso, nada do que está ali relatado pretende preencher alguma necessidade emocional mal resolvida dos leitores. Nada no livro de Dommenique é recalque enfeitado com pitadas de sexo pouco convencional.

A inconvencionalidade deixa-se para alguns outros lançamentos editoriais recentes, em que há esse tom de singularidade e estranhamento e não a naturalidade, como naturais deveriam ser as variedades das manisfestações sexuais. Ainda que incomuns. E, ainda que incomuns, elas são narradas muitas vezes a seco, sem dar muitas satisfações ao leitor menos crédulo, por justamente não precisarem de explicações. Apenas são.

E, nesse entremeio, revela-se uma mulher extremamente sensual – no sentido de alguém ligado aos sentidos, sejam táteis, olfativos, auditivos ou visuais – como quando Dommenique descreve suas sensações ao se preparar para uma cena, vestindo-se da cabeça aos pés de látex (só quem ouviu e gosta sabe como é delicioso o som do látex ao se mover comprimido contra a pele).

Outra ponto positivo, e esse é algo pessoal e sei que muitos do meio BDSM talvez venham a torcer o nariz para a minha opinião (e eu os respeito), é o fato de ela não se curvar a regras, sendo que muitos adeptos desse estilo de vida são partidários de diversas regras comportamentais a que chamam de Liturgia: como um submisso ou uma submissa devem se comportar não só perante seu dominador ou dominadora, mas também perante a uma comunidade toda. Ela sabe muito bem o que lhe dá tesão e se, para obtê-lo, for necessário quebrar regras ela as quebra. Por exemplo, em alguns meios é inaceitável que a dominadora faça sexo com o submisso. Ela, se lhe dá vontade, faz.

A meu ver esse tipo de comportamento sexual é transgressor e, portanto, extremamente libertador (engraçado falar em liberdade em um relacionamento em que se é escravo de alguém, mas é isso mesmo). Para mim, e não cansarei de dizer, apenas para mim, submeter um comportamento transgressor a leis rígidas não faz sentido (a não ser que seja para transgredi-las).

No entanto, abro um parêntese aqui. Um parêntese muito importante. Como Dommenique, defendo que libertariamente cada um deve buscar o que lhe dê tesão, desde que seja dentro da ética e da lei (vamos deixar a moral de fora, né?). Assim, se você é um adepto da Liturgia BDSM, tem tesão por isso e acha importante, tem meu total apoio desde que não imponha seu tesão aos outros. Afinal, o BDSM tem três regras simples e básicas – e essas sim eu considero imprescindíveis: ele deve ser são, seguro e consensual. Isto é, todas as partes envolvidas devem estar de acordo.

E eu estou de acordo em indicar este livro pra você como uma possibilidade de conhecer um lado do BDSM que me agrada muito e, de quebra, conhecer uma mulher que realizou o sonho que muitos de nós temos: realizar-se pessoal, financeira e profissionalmente fazendo algo de que gosta.

Diálogo da ausência

– Por que você não está mais na minha vida?

– Eu estou. Ausente. Sempre estive. Sempre estarei.

Transporte coxinha

MANCHETE: Grande jornal local lança campanha para criação de linha de helicóptero entre Batel Soho e Cabral Soho. “Nossos coxinhas merecem um transporte público melhor”, diz porta-voz do projeto. “A ideia é permitir comer chocolates trufados em um dos sohos e, cinco minutos depois, levar o lulu fazer spinning na academia para pets que fica no outro.”

Lembranças

A memória muitas vezes não passa de ficção.

Não sou comercial

Não sou comercial.
Não sou vendido.
Não sou à venda.
Não sou vendado.
Não sou vendável.
Sou vendaval.

Monólogo da pelada

– Estou me sentido pelada.

– Posso garantir que não está. Vi gente bastante gente pelada nas últimas semanas. Participei de uma oficina de teatro em que muita gente ficava pelada. Posso me declarar um especialista no assunto e você não está pelada não.

– …

– Eu garanto que você está muito vestida.

– …

– Quer dizer, muito mais vestida que uma pessoa pelada. Não está pouco vestida, isto é, com excesso de pouca roupa.

– ….

– Digo, nem pouco nem muito vestida. Vestida na medida.

– …

– Quer dizer: vestida na medida para não estar pelada.

Julgar

Acho que está em O Estrangeiro, de Camus, uma frase que diz que a condenação não é nada se comparada ao julgamento. Penso que seja bom que os julgamentos só sejam realizados por profissionais públicos e, ainda, (em tese) apenas quando estão investidos desse poder. Ninguém está em condições de julgar e condenar nada. Estamos todos de mãos sujas. Julgar, porém, parece fazer parte de nossos mecanismos de sobrevivência: devo ir com essa pessoa ou não? devo acreditar no que este está me dizendo? dou dinheiro àquela ou não? Talvez, a solução seja julgar apenas os fatos que nos dizem respeito instantaneamente, poupando ao máximo fatos, atitudes e pessoas que não nos dizem respeito imediato. Desafio qualquer, no entanto, um a percorrer a sua linha do tempo no Facebok ou no Twitter sem encontrar um julgamento leviano. Como este que você acabou de ler.

Humor ignorante

Humor com respeito (habitualmente, rir de si mesmo) é para poucos. Normalmente o que vemos é o humor feito em cima do outro, do estranho, do diferente, do que não entendemos. O humor que afirma nossa ignorância e nosso medo do que não é a gente.

Minha avó dizia isto

Mais fácil atrair simpatizantes à sua causa com uma gota de mel que com dez barris de vinagre. A fúria e a paixão de ativistas das mais variadas frentes é muitas vezes compreensível e perfeitamente aceitável para quem tem a mínima capacidade de empatia. Mas a eficiência dessas emoções, como método, é questionável pois a maior parte das pessoas que precisa ser convencida da validade de tais objetivos não tem a menor capacidade de empatia.

Polenta

Confesso que quanto mais vivo mais tenho dificuldade em entender a política partidária de meu país e mais facilidade de entender a política de meus intestinos adquiro.

Tratamento

Envelhecer, em si, não é doença. Não precisa de tratamento. Doente, sim, é uma sociedade que acredita que ficar velho, por si só, é um mal.

Compulsória

Pouca coisa torna alguém tão infeliz quanto a obrigação de ser feliz.

Leituras

Aquelas pessoas de quem eu mais gosto de ler os textos na internet são as que eu mais evito ler os comentaristas ao final. Isso diz muito sobre minhas leituras.

Deadline

Uma amiga ontem comentou que gostaria de saber como é a vida sem ter deadlines a cumprir, o que é curioso já que a vida, por definição, tem um deadline irrevogável e definitivo e que, a plena consciência desse, nos faz escolher melhor os deadlines intermediários que abraçamos.

Por que não vivo sem a agenda do Google

Depois que fiquei desempregado, há seis anos, tornei-me uma pessoa extremamente ocupada.

Para viver um grande amor

Para mim (repito: para mim), acreditar em monogamia plena é o mesmo que acreditar que “para viver um grande amor é preciso ser homem de uma só mulher”, mesmo isso tendo sido dito por Vinicius de Moraes. Saca, Vinicius de Moraes, o cara menos de uma só mulher do planeta?

Snowden

Snowden é um Harry Potter cibernético?

Jogos olímpicos de inverno

Estive a reparar que os esportes dos Jogos Olímpicos de Inverno são tão somente variações sobre o mesmo tema de pessoas e coisas se deslocando em superfícies escorregadias. Não deixa de ser uma demonstração de criatividade.

Meu (seu) trabalho

Ontem, no encontro do Alex Castro sobre relacionamentos não-monogâmicos (onde só conheci pessoas interessantíssimas), ao explicar o que eu fazia tive um insight muito interessante na hora de dizer quem “eu sou’ e “o que eu faço”: o meu trabalho é ter uma vida interessante para poder contar sobre ela às outras pessoas (em blogs, na minha newsletter, etc). Mas, no fundo, ao ganharmos uma vida, em essência, esse é um dos nossos trabalhos e responsabilidades. De TODOS nós. Porém, muitas coisas nos afastam disso e muitas vezes nos deixamos afastar. Curiosamente, duas das coisas que nos afastam disso são duas coisas que deveriam FAZER PARTE disso: trabalho e família. Deixamos de ter uma vida interessante ou deixamos de vivê-la plena e abertamente, ainda que seja interessante, para nos preservar diante da família e diante dos colegas de emprego e “superiores”.

Ansiedade da monogamia/monoandria

Normalmente, as pessoas – por conta da ansiedade que um único relacionamento causa e o medo da rejeição pelo outro – têm medo de ser elas mesmas e não se abrem totalmente com a pessoa parceira. Tenho observado que pessoas com mais de um relacionamento – desde que isso não seja escondido de ninguém – conseguem agir naturalmente com seus parceiros com mais facilidade.

Gentil sem ser

Quando estou numa calçada deserta e uma mulher vem da outra direção, tenho o hábito de nem olhar na direção dela, pois sei como o fato de encontrar um homem desconhecido e invasivo, por mínimo que isso pareça para mim, pode ser difícil pra ela.

Para todas as ocasiões

Argumento que serve para qualquer declaração de impossibilidade técnica. Exemplo de uso:

– Senhor, não temos como preparar o seu sanduíche sem alface. O sanduíche vem com alface.

– Rapaz, se o homem conseguiu chegar à lua é possível preparar o sanduíche sem alface.

Win.

Mesmo

Não sou o emo. Sou a esmo.

Baladas infantis

Quando eu era criança, inventava canções em “meu inglês” (na verdade, um idioma que eu inventava na hora) e chorava cantando. Aí me perguntavam por que eu estava chorando e eu respondia: porque é uma música triste.

Navegador

Vi no blog da Olivia Maia e tenho que repetir aqui:

Os antigos escrevem — diz Colombo no Diálogo — que os amantes infelizes jogavam-se no mar do penhasco de Leucádia, e se conseguissem sobreviver, ficavam livres da paixão amorosa pela graça de Apolo. Pois então “cada navegação é quase um salto do penhasco Leucade”. Os navegadores estão sempre em perigo de morte, mas justamente por isso valorizam a vida mais que os outros. Distantes da terra, eles não têm maior desejo do que ver dela um “cantinho”. Disso fazem fé aqueles que participam da presente expedição: incertos da viagem, acordam e adormecem pensando na terra; “e se uma só vez nos será revelado de longe o cume de um monte ou de uma floresta, ou coisa parecida, nossa felicidade será imensa.”  – Piero Boitani, A sombra de Ulisses

Leia o post em que ela divaga lindamente sobre isso.

A raivinha

Às vezes sinto raiva, às vezes sinto raiva com prazer, foi o que restou de tudo, esse sentimento prazeroso de raiva que eu achava, antes, que era a última coisa que me ligava a você, mas que agora sei não me liga a você, nada me liga a você porque você morreu, porque você morreu e a última coisa que sobrou foi essa casca que eu pensava ser você, essa casca que me lembra tanto uma pessoa que eu amei e que essa casca, essa casca mesma, matou, uma pessoa que eu pensei existir, mas que hoje, pensando bem, preferia que não tivesse existido, mesmo a irrevogável cova em que jaz o cadáver de qualquer expectativa minha, preferia que não tivesse existido, porque eu sei que algo meu morreu definitivamente, e não existiu na verdade, existiram apenas as palavras que você foi capaz de dizer, construidas como blocos de madeira, aqueles com letras que as crianças usam, empilhados ao largo de alguns anos, não como quem faz na segurança da civilização, mas como quem desenha a areia da praia, sem poder olhar direito para o que escreveu por causa do sol e então abandona, sai a nado, no arrasto de uma correnteza muito forte, segue em frente, enquanto frases inteiras ficam sem leitor numa ilha deserta, sou sem ilusão agora, sem ilusão e sem casa pra onde voltar, e talvez isso seja bom, como quando alguém diz dramaticamente num filme que algo em si mesmo deixou de existir, o coração, a alma, os olhos talvez, e eu sem coração, sem alma, talvez sem olhos, sinto raiva com prazer, cagando para o que qualquer um possa pensar quanto a isso, não tenho orgulho de dizer isso, mas também não me sinto humilhado, é algo que tenho e se eu fosse manco, seria manco, se eu fosse corcunda, seria corcunda e nada mudaria isso, assim, eu sinto raiva, tenho essa raiva em mim e sinto que, de alguma forma ela me define, e só irá embora quando eu me desintegrar, da mesma maneira que a corcunda só se desintegra quando o corcunda se desintegra, assim, isso o que digo, essa deformidade de caráter, apenas é, ela existe, ela é, é inegável, sou o que sou e sei que algumas pessoas vivem sem membros, perdidos em acidentes, na guerra, na doença, no veneno, e esses membros perdidos doem, em algum lugar, eles pulsam, e mesmo não estando mais presentes eles doem, pois estão, sim, estão em algum lugar, pulsando, doendo, mas se afinal já se perdeu tudo, tudo, o que mais há a perder, não, nada, nada a se perder, então tudo vira uma grande diversão, ainda que amarga, às vezes eu me amargo, e às vezes eu sorrio, aliás com frequência e sinceridade sorrio e canto e assovio e me empolgo, mas em algum lugar latente está o amargo, e não há um dia em que eu não pense em você e não me arrependa de pensar, e então, novamente, me agarro ao prazer de sentir essa raivinha já até gostosa, que trato até no diminutivo atualmente, porque tenho um imenso carinho por ela, e como são raras as coisas por que ter carinho hoje em dia, em dias tão quentes, em noites tão claras, e me delicio nela, na raiva, não como chapinhando em poças d’água depois da chuva, mas como quem se perde num passatempo, como quem monta um quebra-cabeça e encaixa as peças erradas a martelo, invento roteiros sobre essa raivinha, fotografias, cenas, móveis, paisagens, cores, novos jogos de tabuleiro, crio um universo inteiro só com essa raivinha, essa raiva, essa raivona só para mostrar do que eu sou capaz invento um buraco negro para onde tudo, você, a raivinha, os cubos com letrinhas, a ilha deserta, o corcunda, tudo é sugado e desaparece, tudo esmagado detalhada, perfeita e irrepreensívelmente, até que só reste o verbo (como no início) e, de posse do verbo, só me reste dizer uma coisa, que é: nunca apronte com um escorpião com ascendente em áries.

© 2017 Alessandro Martins

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