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Sinto falta

Sinto falta de encontrar você no meio do caminho e abrir um sorriso e os braços a uma quadra de distância. Porque era a pessoa que eu mais queria ver naquele instante que vinha ali, mesmo quando, eventualmente, eu não quisesse ver ninguém. De escutar você dizer meu nome no meio da escadaria, antes de chegar em casa. Dos ataques de carinho e dos nomes incompreensíveis pelos quais nos chamávamos. Das expressões que você inventava e que a revelavam muito mais poeta do que eu. Dos banhos demorados e do delineador cuidadosamente desenhando o olho. Das manchas de maquiagem na toalha. Do jeito que você pega no nariz quando fala de filosofia. De como observou que eu mexo a boca de um jeito quando estou pensando na palavra certa. De como deixou de observar. De poder brincar de ser criança e pensar que eu era aquele menino que ficou com a menina mais bonita da escola. De quando você dizia “não gosto” quando alguma coisa ruim podia acontecer e quando dizia “por favor” quando algo bom estava prestes a ocorrer, mais como promessa que como pedido. Da manjerona que na verdade era uma erva daninha fingindo ser manjerona. De como você preferia os móveis sem nada em cima. Da pinup na parede. De como eu me sentia em casa na minha própria casa (e como não me sinto hoje em lugar algum). De como você nunca reparou que eu abria a porta pra você porque isso não tinha importância mesmo, afinal, todo o mundo sabe abrir a porta do carro. De tomar café com você nos seus pais quinta à noite. Do jeito que seu cabelo tem uma faixa luminosa sob a luz, mesmo com o barulho do secador todos os dias, do qual também (até) sinto falta. Da cama aquecida com a bolsa de água quente amarela. Dos seus pés, de suas pernas, seios, do ossinho esquisito e desesperador, das suas tatuagens (da folha que faltou pintar, inclusive), dos seus olhos verdes, das suas mãos do tamanho das minhas. Da mesa enorme, de madeira, onde receberíamos os amigos quando fôssemos velhos. De como às vezes você preferia ficar dormindo a sair tomar café muito cedo comigo. De buscá-la em lugares. De deixá-la em lugares. De pensar em coisas pra agradá-la (de como era tão fácil de agradar). Até de quem eu era quando estava com você eu sinto falta. Do “mais do que tudo” e da estrela de que provavelmente viemos os dois em forma de poeira para, só então, nos fazermos gente, segundo Carl Sagan (embora não lembre como ela era ou se era quente demais por lá). Das coisas que você me dava e até das que não dava e das que jamais poderá dar – e que hoje tenho – sinto falta.

Como se livrar do ciúme

O ciúme é basicamente o medo de perder algo que, em verdade, não se pode possuir. Nesta definição está também explicada a raiz do problema.

Os sintomas todos sabem e eles culminam com cenas públicas, possessividade, ansiedade, agressões e muitas outras coisas que todos nós conhecemos, por termos passado, em maior ou menor grau.

Por definição, o ciúme é um medo infundado: não se deveria ter medo de perder algo que não se pode ter. Não se pode perder o que você não tem. Você não possui uma pessoa.

Ainda que pudesse enjaulá-la, não pode controlar seus pensamentos e desejos. E, ainda que pudesse controlar, qual seria o sentido do relacionamento com o outro. Ele seria tão somente transformado em uma relação narcisista consigo mesmo. De qualquer modo, isso não existe. Talvez nas ilusões neuróticas de muitos casais.

Medo do escuro faz muito mais sentido que o medo de perder alguém. No escuro você pode pisar em uma peça de Lego, por exemplo. Ou ser atacado pelo chupa-cabra. Portanto tem muito mais fundamento que o ciúme.

Lide com esse medo, o ciúme, como você lida com qualquer outro medo.

Por exemplo, o medo de barata. Digamos que você tenha um medo patológico desse inseto nojento e asqueroso a ponto de entrar em pânico, ter taquicardia, ficar paralisado e sem saber o que fazer. Não é simplesmente o nojo que a maioria de nós tem, mas uma situação ambiental que lhe faz mal a ponto de prejudicar sua saúde física e psicológica.

Nesse caso você precisa lidar com isso.

Você não vai se jogar numa cova cheia desses bichos nojentos para acabar com o seu medo. Isso só iria traumatizá-lo ainda mais. Além disso, baratas transmitem doenças. Se fizer isso, use uma roupa adequada.

O que você vai fazer? Vai se expor a seu medo aos poucos.

Primeiro vai fazer, você mesmo, um desenho de uma barata, sem muitos detalhes. Conviva com esse desenho.

Depois vai ler um artigo sobre baratas.

Só então, olhe um desenho mais detalhado de uma barata. Parta para uma foto, depois para uma miniatura, um vídeo, sempre só indo para a próxima fase quando a anterior se tornou aceitável. Abrace um cara vestido de barata. E, finalmente, enfrente uma barata de verdade, mostrando para ela com seu chinelo quem é que manda.

Com o ciúme é a mesma coisa. Exponha-se a situações a que, supostamente, você não está preparado, aos poucos, e se livre dessa patologia de uma vez.

Por que decidi ficar solteiro para sempre

casamento

Até poucos meses atrás eu tinha um relacionamento sério com uma garota e podíamos nos relacionar também com outras pessoas.

De fato, descobri há algum tempo que este é a melhor forma de eu viver mais plenamente minha vida emocional e sexual, de uma maneira mais próxima àquilo que realmente sou e ainda quero ser. (Leia sobre isso em meus textos: Fuga de Relacionamentos e em Eu Amo Várias Mulheres ao Mesmo Tempo)

Porém, eu enfrentava uma certa dificuldade.

Enquanto para ela era relativamente fácil estabelecer outros relacionamentos além do nosso – na medida de seus desejos e emoções -, para mim havia certos obstáculos a mais.

Acontece que, para o resto do mundo que nos conhecia, nós tínhamos um relacionamento, um namoro ou mesmo um casamento pois vivemos juntos durante seis anos.

Diante deste cenário, eu vou expor o comportamento que observei entre homens e mulheres que se envolveram conosco em  maior ou menor grau e talvez outras pessoas que tenham a mesma postura quanto a alternativas de relacionamentos afetivos confirmem ou não minhas observações.

Ao desejar outra pessoa ou mesmo ter sentimentos por ela, minha parceira manifestava de alguma maneira esses desejos e sentimentos. Em um primeiro momento essa outra pessoa ficava mais ou menos cautelosa, por saber que minha parceira estava em um relacionamento, mas imediatamente ao saber da natureza desse relacionamento ficava tranquila e as coisas aconteciam.

Tenho algumas teorias sobre isso, todas são generalistas e por isso certamente haverá exceções em maior ou menor grau. Mas ei-las:

  1. Normalmente, homens não se preocupam com a continuidade que terá o encontro entre duas pessoas
  2. Embora emoções sempre estejam envolvidas, homens em um primeiro momento estão mais interessados na possibilidade do sexo
  3. Dá-se uma importância menor ao que a outra parte de casal pensa ou despensa (no caso, eu). O que num relacionamento desta natureza, com estas regras, está muito correto

Por meu lado, com raras exceções, observei que as mulheres, mesmo sabendo a natureza de meu relacionamento com minha parceira, suas regras claras e leais a um só tempo, ainda assim, não se sentiam à vontade com as possibilidades, o que obviamente eu aceitava e respeitava, embora intrigado e contrariado em meus desejos e emoções (afinal, não se pode ter tudo o que quer e nem todo dia é dia de estrogonofe).

Não sei ao certo por que isso acontece, mas o fato é que acontecia. A única coisa que posso fazer é tecer teorias, todas generalizantes como as outras acima e que por isso, nunca é demais destacar, irão contra alguns casos individuais.

  1. Mulheres tendem a se preocupar com a continuidade e com as consequências que terá o encontro entre duas pessoas
  2. Elas também terão uma maior preocupação com as emoções envolvidas, por mais que estejam também interessadas em sexo. Ainda que haja emoções (pelo menos no meu caso), a incerteza quanto a isso complica mais qualquer decisão a este respeito
  3. Por saber que você está em um relacionamento, ela se preocupa com a outra parte do casal, principalmente se for amiga da outra parte. Mesmo separado há meses, algumas amigas de minha antiga parceira receiam me procurar por medo de ferir algum sentimento dela, coisa que definitivamente não acontecerá

Desse modo, declarando-me solteiro, resolvo pelo menos duas partes dessas três questões, restando apenas a primeira.

Não estou em um relacionamento (em verdade, estou em vários, todos sérios, com diferentes intensões e intensidades, mas todos importantes). Não existe uma outra parte, portanto. Além disso, as emoções sempre estarão evidentes. Pelo menos, eu me pauto pela clareza em qualquer relacionamento. Seja afetivo ou não.

Quanto à continuidade desse relacionamento, que é a primeira questão acima, ela estará evidente em algum sentido (pelo menos no sentido de que não teremos um relacionamento monogâmico, monoândrigo, exclusivista, etc) e, imediatamente, ao saber disso, a pessoa poderá fazer a escolha mais correta de acordo com sua personalidade.

Ainda assim, a continuidade desse relacionamento é uma incógnita cheia de posssibilidades o que ao meu ver, é mais interessante.

Nota: eu também falei sobre esse tema mas de outra forma no texto Relacionamentos Abertos.

photo credit: Groom and bride via photopin (license)

Coisas arranham

Eu não entendo por que o usuário médio do iPhone tem tanto medo que seu aparelho arranhe.

A tela, vá lá, até faz sentido.

Mas o corpo do celular, jamais entendi, jamais entenderei.

Coisas arranham. Viva com isso.

Liquidificadores arranham. Panelas arranham. Até carros são arranhados, veja você (aliás, colocam um monte de latas com rodas rodando juntas em ruas estreitas a alta velocidade e, de repente, acontece um amassado: qual a surpresa?).

Tudo arranha. Até seu coraçãozinho.

Esse comportamento parece a retroalimentação, via consumidor, da obsolescência programada em que tudo que é novo só é novo até o primeiro arranhão.

E o medo do primeiro arranhão ocupa a mente de tal forma nessas pessoas que falta espaço para coisas realmente importantes como sexo, por exemplo.

Os psicólogos têm um nome para isso, quando direcionamos nossas energias para problemas e sofrimentos infrutíferos (como cuidar doentiamente para que seu iPhone não arranhe) em vez de direcioná-las para situações prazerosas.

Como sexo. Por exemplo.

O nome que eles dão é neurose.

Pense em algum cara fodão. Digamos o Clint Eastwood com seus 243 anos de idade aproximadamente.

Ele está pensando sobre se o seu iPhone vai arranhar ou não? Não. Provavelmente está trepando.

Ou pensando nisso ao menos.

Pare de se preocupar com essas porras e seje ómi.

Minha receita de ovo frito

Para esta receita de ovo frito, você precisará de um ovo, óleo vegetal, sal, uma frigideira e uma fonte de radiação térmica de razoável intensidade, suficiente para fritar um ovo.

Pode ser um fogão comum de cozinha ligado à rede de gás ou a um botijão que contenha gás de cozinha.

Gás hélio não funcionará, mas servirá para encher balões.

Coloque o óleo vegetal na frigideira. Não esfreque no corpo. Deixe o óleo esquentar. Para que o óleo esquente você precisará acender o fogo.

Se você não fizer isso, o óleo não esquentará. Ficará no que costuma se chamar nos meios científicos de “temperatura ambiente”.

Quando o óleo estiver quente (não experimente com o dedo), quebre o ovo e jogue o que tiver dentro dele no óleo.

Se você tentar fritar o ovo sem quebrá-lo pode ser que a receita não funcione.

Importante: quebre o ovo e jogue o que estiver DENTRO na frigideira e o que estiver fora no lixo.

O lado de fora é chamado de casca e não serve para essa receita. É fácil de ser identificada: é branca e quebradiça. Jogue no lixo.

O lado de dentro é fácil de ser diferenciado também, pois é composto geralmente por uma parte clara e transparente que é chamada de clara (fácil de lembrar portanto) e uma parte alaranjada e opaca que é chamada de gema (essa é mais difícil).

Quando você jogar o conteúdo interno do ovo no óleo quente, ouvirá um som característico de fritura. Esse som significa que o ovo está “fritando”.

Enquanto o ovo frita, jogue um pouco de sal. O sal serve para deixar o ovo “salgado”.

DICA IMPORTANTE: sempre que você quiser deixar uma receita salgada, coloque sal. NUNCA FALHA. A família aprovará.

Se você colocar muito sal, ficará muito salgado. Se colocar pouco sal, ficará pouco salgado. PERCEBE A LÓGICA?

Observe que o ovo, durante esse tempo passará por uma transformação. De cru ele ficará “frito”.

Quando o ovo estiver “frito”, desligue o fogo (supondo que você o acendeu) e coma. O ovo.

DICA DE QUANTO TEMPO DEIXAR O OVO “FRITANDO”: pense num tempo médio. Um segundo será insuficiente. Dois anos será demais. No primeiro caso, a receita ficará crua. E, no segundo, você terá morrido de fome ou terá causado um incêndio e portanto estragado a receita.

Lembre de tirar da frigideira e colocar num prato ou dentro de um pão.

Na próxima aula ensinarei como colocar o ovo “frito” num prato e, na seguinte, como colocar o ovo “frito” no pão.

A alegria do sempre existido

Para Priscilla

Eu, que certa vez senti que tinha em mim uma lágrima de dois quilos e meio, guardada em algum lugar entre o coração e o alto da cabeça, descobri, de repente, que sem perceber a exorcizei. Acordei e vi que nas vidraças havia um acúmulo de umidade e era como se a paisagem transpirasse aquela antiga infiltração de tristezas desde a adolescência acumuladas nesse ninho indistinto e secreto. Durante a noite, fugira de mim aquilo tudo e perdia-se para sempre no ambiente. Pois não havia lugar que dividir com as alegrias que agora marchavam e dominavam um amplo território em mim.

Havia mais do que aquilo que eu via.

O tato e o peso de um outro corpo que se apoiava sobre meu peito e ressonava sereno era a verdade a me tocar. A verdade tem pele macia e sono tranqüilo e aquele jeito inconfundível de repousar a mão sobre o meu dorso como se estivesse a um milímetro de flutuar.

Sou homem capaz de, sozinho, me salvar. Como fazem os heróis solitários nos faroestes e nos romances de capa e espada, depois de anos de privação e treino e a jurar vingança. Mesmo sem desditas a vingar, esse era eu. O aspirante a eremita, na porta da caverna, entre a sombra e a luz a empunhar uma espada.

Mas não sou o louco que recusa o abraço da vida quando a vida, em forma de mulher, mostra a extensão que vai dos dedos da mão esquerda até os da direita e passa por ombros delicados e, entre os ombros, um tronco suave e, nesse tronco, dois seios que me cabem na mão e, nesses seios, dois mamilos feitos para minha língua.

Sei lá eu o que há nela: basta só sua presença, e já o mundo lateja entre minhas pernas.

Os pudicos que me desculpem o arroubo – ou que ao menos calem a boca -, mas poucas coisas são mais belas que tal mulher apoiada sobre braços e joelhos a oferecer-se como paisagem e deleite, primeiro para o paladar e para o olfato e, depois, como morada. E num milagre, coloco o mundo, que pulsa, em tão estreita passagem.

O que tem ela ali, e só de pensar salivo, é a coisa mais apetitosa do mundo, boa de olhar, de lamber e, sim, de meter. E, em certos momentos, com tal força que é como se eu quisesse voltar para lugares dos quais não vim, como quem decidido pula no abismo, da maneira como o bicho da água que, agora, quer a atmosfera. Eu salto, assim, vezes aos arranques vezes suavemente, para outras paisagens.

É música a pele de meus quadris a bater contra os seus enquanto a puxo com minhas mãos que seguram ora enlaçando-a forte pela cintura ora agarradas aos seus cabelos, são música os seus gemidos, os risos de alegria, o nosso ofegar do esforço, de gostosura e de uma exaustão que a essa altura não consegue derrotar nem a mim nem a ela: somos algazarra viva. Somos o júbilo do primeiro amanhecer, do primeiro nascente contemplado, da Terra, por olhos humanos, o júbilo do não criado e sempre existido. O Espírito Santo fez morada em nosso corpo e não há mais pecado em ser feliz.

Ela me diz palavras ofensivas e ouço flores. Eu lhe digo blasfêmias e ela entende as maiores delicadezas. A única coisa que nos separa é o não saber onde eu começo e termino e onde ela termina e começa. Desenvolvemos assim uma gramática de pequenos gestos e grandes pensamentos e tão grandes são que não os percebemos e tão pequenos são que estão em toda parte, os gestos.

Minhas paredes estão todas tocadas por sua mão. Nelas leio o que quer dizer. E minha pele é seu pergaminho. Escreve-me com seus dentes.

E, finalmente, depois de tudo dito e, dessa maneira única, explicado, para os poucos que podem entender, e digo poucos pois somos eu e ela, acosto-me novamente puro nos lençóis, como nasci. Aquela lágrima gigantesca jamais precisou ser chorada. Jamais precisará.

Primeiro lição da reciclagem no Detran: assumir infrações já é socialmente aceito

Descobri algumas coisas no primeiro dia de reciclagem no Detran. A mais interessante delas é que a maior parte das pessoas que estava na sala não tinha cometido as infrações que as levaram a ter a Carteira Nacional de Habilitação suspensa. E a instrutora sabe disso.

Ao final da aula aplicou um questionário – sem identificação e com fins estatísticos – que incluiam as opções:

  • marque com um xis a infração que você cometeu
  • marque com um xis se foi você que as cometeu ou não
  • e, nesse caso, marque também se o problema se deu por falta de apresentação do condutor ou porque você assumiu a infração por outra pessoa

Ela explicou que o personagem mais comum em suas aulas são os pais ou avós, geralmente idosos, que por assumirem as culpas de netos e filhos vão parar ali. Outro personagem comum são casos como o meu: falta da apresentação do condutor quando de alguma infração que conduza a suspensão direta ou por pontos. Ou porque ficaram com pontos na CNH pois não fizeram a transferência de um veículo como manda a lei e aquele que deveria ser o novo proprietário do veículo não assume as infrações.

Uma senhora, colega minha durante esta semana, faz pela segunda vez o curso. Disse que acha até divertidas as aulas. Tem nas costas multas que seriam para filhos e um genro. Muito paciente. O neto, um dos beneficiados, vem trazê-la e buscá-la ao final da aula.

Apenas um terço, aproximadamente, está ali por faltas que de fato cometeram. Pelo menos na amostragem de minha sala.

Um deles é um sujeito divertido ao lado de quem sentei. Caminhoneiro e ex-funcionário de funerária foi pego embriagado depois de um acidente. Nada grave (o acidente; a irresponsabilidade de dirigir bêbado ele assumiu), mas suficiente para fazê-lo ter a carteira suspensa por 12 meses. Estaria em condicional por dois anos, mas não tem ido assinar a presença no fórum, o que, acredita, pode lhe dar problemas em breve.

Há dois anos não bebe (os outros motoristas presentes disseram que preferem ficar sem carteira a parar de beber). Trabalha agora em um açougue e disse-me que as pessoas pararam de comprar carne de porco depois da gripe suína.

– Ignorância. Não tem nada a ver.

Conseguiu mudar o horário de trabalho para comparecer às aulas. Agora encontrou Jesus e, tirando o fato de não ter sido um preso condicional muito assíduo, ao que parece, está se endireitando e pretente, em breve, voltar a dirigir caminhões, sua paixão. Detalhe: com 30 anos, casado, juntado, amasiado, enfim, 8 vezes. Seis filhos. No momento, ora para que sua cara metade, tão devotada quanto ele, apareça. Diz não ter pressa.

A instrutora alertou-nos para ficarmos muito atentos às multas que levamos. Agora, no Paraná, todos os policiais tem permissão para passar notificações e alguns deles não estão suficientemente preparados. Ao que parece, tem chegado algumas bobagens passíveis de contestação ao Detran. Na primeira instância ninguém ganha. Mas se você entra com recurso na segunda instância, no Jari, as chances sobem. No entanto, no Diretran, órgão de trânsito municipal, ela não sabe como a coisa funciona.

Uma senhora, no começo da reciclagem, disse que era um absurdo estarmos naquela aula com essa história de gripe e todos os colégios com atividades suspensas. Ao que a instrutora, sempre muito sorridente, respondeu que ninguém era obrigado a estar ali e, caso ela preferisse, poderia marcar a reciclagem para uma outra data.

Ao que todos concordaram que seria uma boa idéia. Ninguém gosta de encrenqueiros.

Carteira suspensa: primeiros sintomas

Ter a carteira de habilitação suspensa só está me fazendo bem. Sem dirigir meu ânimo ficou ainda melhor. Gosto de andar. Hoje fui à casa de minha mãe, um trajeto de uns 10 quilômetros de bicicleta e pude apreciar mais a paisagem e sentir-me mais em contato com as pessoas que estavam no caminho. Conversei com mais gente, vi mais coisas e encontrei diversas fotografias boas para fazer.

Ao mesmo tempo percebi mais claramente como o trânsito transtorna os motoristas. Em quase todas as esquinas havia alguém buzinando sobressaltadamente para alguém. Freadas bruscas aqui e ali. Aceleradas ameaçadoras acolá. Quando não xingamentos. Filas de veículos parados. Motores capazes de arrastar toneladas carregando apenas um terráqueo.

O tempo do trajeto aumentou em apenas 20 minutos na ida e 20 minutos na volta. Como gosto de exercícios, sinto que economizo assim o tempo e o dinheiro que gastaria em uma academia. E evitando o trânsito, em vez de me sentir esgotado pela experiência do deslocamento, senti-me renovado. Cada vez mais seriamente penso em adotar a bicicleta de uma forma mais definitiva como meio de transporte. Exceção dos dias de chuva.

Esses dias andei na chuva e mesmo com guarda-chuva meus pés molharam e os sapatos ficaram inundados. Sem problema: penso em comprar galochas para essas ocasiões. Lembro de quando era criança e pisava com gosto nas poças usando as minhas “sete-léguas”, sabendo que meus pés continuariam sequinhos.

Porém, espero que a chuva tenha dado uma boa trégua para que eu possa continuar minhas excursões ciclísticas por meus habituais trajetos.

Amor nos tempos de gripe suína e… Twitter

Leia o texto abaixo como se tivesse sido escrito por uma pessoa apenas, mas cuja leitura fosse coletiva, como se cada tweet fosse uma frase lida por um participante diferente.

A autoria de cada tweet aqui retratado é individual – creditada através do link nas imagens -, mas a autoria do todo sem dúvida é coletiva.

É como se fôssemos um grande organismo. Que espirra, que vive, que ama e que morre. Sabel lá o que coletivamente estamos dizendo neste instante. Sabe lá, acima de tudo, o que estamos calando.

Se me beijar sempre assim

Neste dia dos namorados,
para Júlia, que me ensina a beijar

Se me beijar sempre assim, jamais morrerei de sede.

Lábios úmidos de beijos nada dizem sobre as dúvidas da morte, seus antes e seus depois, repletos da presunção humana.

Eventualmente falam. Mas principalmente calam. Porque tem selados em si as poucas certezas que um homem pode ter a respeito da vida. Elas moram entre aquilo que passou e aquilo que virá. São simples, mas absolutas. E indizíveis. Dormem no sorriso disfarçado que carrego pelas calçadas desta cidade.

Se me beijar sempre assim, jamais morrerei de fome.

  • Leia este texto inteiro no site ParaZu, que criei para divulgar o livro de que ele faz parte

Hoje, mandei esta mensagem para a escola onde estudei do jardim à quarta-série*

Queridas tias,

Mariza, Marli, Marise, Zandaíra, Nazaré, Maria Tereza e tantas outras de que não lembro o nome, mas de que lembro as faces e cabelos lindos e que tão bem cuidaram de mim entre 1979 e 1984.

Escrevo do futuro. E espero que, quando esta mensagem chegar a vocês, as encontre com saúde e alegria.

Quero que saibam que estou muito bem. Não sou um sujeito rico, no sentido vulgar do termo, mas também não sou um sujeito pobre. Minha riqueza está no saber que nunca vai me faltar algo. Tampouco sobrar. Tenho as coisas na medida exata. Esse é um valor que, creio, comecei a aprender aí.

Aqui no futuro as coisas são complicadas, mas muitos de nós sabem mais ou menos lidar com elas e procuram ajudar os que não sabem. Claro, tem gente indiferente também. Continuamos todos aprendendo. Ainda não inventaram a pílula da sabedoria absoluta.

Dizem que o clima mundial não está muito bem. Outros dizem que é assim mesmo. É uma guerra de informações em que alguns, individualmente ou em grupo, tentam fazer a sua parte.

Ao mesmo tempo, um coreano traz a sombra da ameaça nuclear que pairou sobre nossas cabeças na época em que estive aí. Na verdade, não importa a nacionalidade. Sempre vai ter um maluco dizendo que quer explodir o mundo. Quando eu estava com vocês, o nome dessa ameaça era Guerra Fria, como bem me lembro. Mas não víamos falar sobre isso na escola. Só no Jornal Nacional.

Atualmente a economia oscila entre os tempos de bonança e os tempos de crise. Não é preciso ser muito inteligente para saber que sempre foi e sempre vai ser assim e, caso aí no passado vocês tenham alguma dúvida, eu garanto: não tem sido diferente durante esses 25 anos que as deixei para viver aqui, no futuro. Portanto, para viver bem, há que se acostumar com essas oscilações.

Mas tenho uma boa notícia: não tem mais aquela inflação. Se ainda está difícil comprar as coisas de que precisamos para viver, pelo menos ficou mais fácil fazer as contas e planejar.

Israel ainda não se entendeu com os palestinos.

O Brasil ainda é o País do Futuro. Mas acho que pouco a pouco estamos colocando nossos pés mais no presente. Sem perder, no entanto, a perspectiva para o tempo distante.

É difícil, mas algo me diz que as coisas estão melhorando. Claro que ainda tem coisas muito ruins. Mas não quero falar tanto sobre elas, para não chateá-las. Ninguém disse que seria fácil.

Porém, apesar de tudo isso, clima, guerras, economia, as pessoas continuam tão esperançosas, talentosas e capazes quanto eram quando eu estava junto de vocês.

Acho muito possível que vocês não lembrem de mim, mas se tiverem curiosidade estou certo de que há um arquivo em que poderão saber um pouco mais sobre como eu era (por isso assino com o nome completo: para acharem a minha figura magrela). Talvez até encontrem uma foto minha. Estou muito diferente, pois a viagem até o futuro me causou, como efeito colateral, a perda dos cabelos. Mas minha mãe garante que continuo bonito apesar disso.

Coisas que não esqueço: o dia de pegar livros e levar para casa; a vez em que interpretei Pluft, o Fantasminha, ao final da quarta série; o primeiro amor – que aí conheci (ela não me conheceu) – e até as pequenas decepções infantis.

Ah, claro! Na primeira série, caí da arquibancada (lembram? ela tinha apenas dois degraus, a arquibancada) e uma de vocês, acho que foi a Tia Mariza, me levou à Clinica Vila Hauer (não existe mais) para levar pontos.

Um dia teve gincana e eu ganhei um concurso de estourar balões. Infelizmente, não segui a carreira de mergulhador em apnéia que essa pequena vitória prenunciava. Acho que foi em um dia dos pais.

Meu pai morreu recentemente, de câncer, mas não se preocupem pois já estamos bem, minha mãe, minha irmã e eu. Ele foi valoroso e forte nessa história toda e, creio, dessa maneira nos deixou fortes também. Sofreu o mínimo e nós, da mesma maneira. Claro que ainda sinto falta dele, assim como sinto falta de todos os meus avós que também já partiram. Talvez vocês se lembrem da Dona Rosa e do Seu Purciano que todo dia levava-me pela mão e, ao final da tarde, buscava-me. Quanta coisa aprendi nesse caminho de ida e de volta.

Acho que fui um bom aluno, mas quando a Tia Marise passava de carteira em carteira, depois da correção dos cadernos, devo confessar que sempre fui um tanto condescendente para comigo mesmo e dizia ter cometido menos erros do que os que realmente cometera. Digam a ela, caso não esteja lendo esta carta, para não se preocupar, apesar disso. Pois minha formação ética hoje não me permitiria cometer tais deslizes intencionalmente. E que esses pequenos erros de ontem fazem com que eu tenha mais acertos hoje. Seja lá o que forem acertos.

Talvez a vida, de fato, não se meça por erros ou acertos. Talvez ela seja medida apenas pelos lugares por onde se passou, pelas pessoas que, nesses lugares, se teve oportunidade de amar e se, de fato, essas oportunidades foram aproveitadas.

Não sei dizer dos outros, mas fico feliz por ter passado por aí e amei isso.

Amo vocês de todo o meu coração.

Saudades,
Alessandro.

*para quem ficou curioso a escola é a Escola Sebastião Paraná, aqui em Curitiba

Cabeças na Lua

O avô de um amigo meu até hoje duvida que o homem tenha chegado à Lua.

Na noite de 1969, enquanto todos assistiam ao evento nas tevês, ele colocou a cabeça para fora da janela, olhou para o céu, voltou-se para a lua e disse:

– Não estou vendo ninguém lá em cima.

Em minha opinião, o testemunho ocular tem muito mais valor que o testemunho mediado pela câmera e tenho a tendência a acompanhar a opinião do velho.

Um outro amigo meu, não lembro quem, disse que considera impossível que o homem tenha alcançado tal feito naquela época:

– Não havia Macintoshes.

Enquanto conversávamos sobre a capacidade ou não de Steve Jobs plantar maçãs em nosso satélite natural, o Marco lembrou de um documentário recente em que um dos cientistas da missão, a certo momento, para efeito de demonstração segurava um tamagoshi.

Para quem não lembra, os tamagoshis eram brinquedos em que você precisava clicar certos botões para que ele se sentisse alimentado e acariciado, a fim de que não morresse de fome ou tristeza e, assim, continuasse a atormentar as aulas ginasiais com seus constantes bips.

O cientista segurava esse aparelhinho e dizia:

– O computador que usamos para pousar o módulo lunar tinha menos capacidade de processamento que este tamagoshi.

O Marco terminou de contar isso e Júlia concluiu:

– O problema ia ser se eles esquecessem de dar comidinha ou se ele ficasse triste no meio da viagem…

Contei este diálogo ao meu amigo Thiago, com quem faço meu quebra-jejum diariamente, na Panificadora Pote de Mel, e ele encerrou a questão toda:

– Mas isso aconteceu. Na Apolo 13.

Um café com leite e um pão com manteiga, pode ser?

– Um café com leite, por favor. E um pão com manteiga.

O garçom deixa o cardápio sem ouvir e segue para atender outra mesa. Nem abro o menu. Afinal, já sei o que quero. É algo simples. Um café com leite e um pão com manteiga.

Depois de alguns minutos, dilatados pela fome matutina, volta o garçom. Aquele ar de leve ansiedade que um garçom tem quando segura o bloquinho para anotar o pedido.

– Um café com leite por favor. E um pão com manteiga.

Ele olha por cima do caderno de anotações. Aquele ar de leve espanto que um garçom tem quando alguém pede algo absurdo.

– Senhor, creio não termos esses produtos.

Por um instante penso ter me enganado. Posso ter entrado em uma barbearia por engano.

Mas olho ao meu redor. E há máquinas de café, xícaras, pessoas tomando líquidos que parecem ser café. Há cheiro de café. E a plaqueta da fachada que, do lugar que eu ocupo, fica meio de fianco para meu ponto de vista, tem a palavra: café. Em letras cor de café.

Sim. Portanto, estou certamente em um lugar que serve café.

Procuro manter a calma para o caso de ter acessado alguma dimensão bizarra sem ter percebido. E repito:

– Desculpe, o frio faz a minha dicção ficar péssima. Eu estava justamente pedindo um café com leite e um pão com manteiga.

– Sim, senhor. Mas não temos esses produtos.

– Mas o que vocês servem aqui?

– Café. O senhor olhou nosso cardápio?

Agora está claro. Eu acessei alguma dimensão bizarra. Fiz bem em manter a calma.

Passo a usar aquele tom de quem está mantendo a calma. É uma voz melodiosa e modulada:

– Certo. Vou dar uma olhada no cardápio, nesse caso.

O garçom observa-me mais um pouco enquanto eu tomo da mesa o cardápio e o abro. Aquele ar de leve presunção que um garçom tem quando consegue mostrar que o cliente está errado e ele certo.

Mas, diferentemente do que ele deve pensar nesse instante, eu não estou convencido.

Inicio minhas investigações naquelas misteriosas páginas.

Que mostram ser mais misteriosas do que eu imaginava.

Na seção de cafés, que tem mais ou menos umas cinco folhas, leio diversos nomes, todos em italiano com uma descrição rápida dos ingredientes das bebidas, do tempo de contato do pó com a água e a temperatura em que isso acontece, entre outros detalhes importantíssimos para quem quer beber um mero café com leite às nove horas da manhã de um dia qualquer. Por algum motivo lúdico, decido contar quantas são as opções diferentes por ali, mas resolvo parar na número 43.

Chamo o garçom.

Ele se desloca até mim enquanto tira o bloquinho e a caneta do bolso. Aquele ar de leve ansiedade, já não tão leve, que tem um garçom quando está prestes a , pela segunda vez, tentar anotar um pedido.

Eu mostro para ele as cinco folhas de opções e pergunto:

– Qual destes aqui é mais parecido com um café com leite?

Ele faz uma expressão estranha. Não sei se está com o leve ar de ofendido que um garçom tem quando um cliente joga salada em seu uniforme ou com o leve ar confuso de quando pedem um prato que naquele dia não está muito bom.

– Creio que este aqui, senhor.

Ele me aponta um daqueles nomes em italiano. Tem uns cinco ingredientes e umas cinco temperaturas de preparo diferentes, sem falar nas pressões de extração da água e que, a julgar pelo detalhismo e pela precisão científica de toda a descrição, deve ser o que eles tomam nos escritórios da Nasa.

O preço, pelo menos, é de foguete.

– Você não pode simplesmente pegar o café daquela máquina e despejar um pouco de leite daquele bule? Não precisa nem adoçar. Eu tomo amargo.

Perguntar não ofende, afinal.

– Senhor, nossa barista não permitiria.

Mais tarde, em casa, procuro em um dicionário e descubro que barista é o sujeito especializado em preparar café.

– Entendo.

O silêncio de quem não entende.

– Nesse caso, me traz uma caneca grande desse.

– Não servimos esse café em canecas, senhor. Usamos xícaras para esse aí.

– Me traz uma grande então.

Minutos depois, vem a xícara grande, do tipo usada como banheira pelo Pequeno Polegar.

O garçom a deixa à minha frente sem notar minha decepção. Ele, com o leve ar de satisfação de um trabalho bem feito que os garçons têm nessa hora.

– Ei – eu digo.

Ele se vira. E eu peço:

– E o pão com manteiga? Pode ser?

© 2017 Alessandro Martins

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