Há dois anos num dia frio como hoje

Há dois anos, num dia frio como hoje, perdi um pedaço. Não uma fatia, não um naco. Não um ventrículo, não um átrio do coração. Nenhuma sístole ou diástole foi negligenciada. Não perdi uma das suas muitas válvulas, ou veias, ou artérias, feixes musculares. Não o vazio da escura caverna fibrosa, não o oco quando o sangue falta, não o som surdo quando o sangue flui, não o oxigênio, o ferro e a glicose que nutrem o órgão na sua continuidade involuntária. Ou mesmo a resultante química e física do processamento orgânico dessa combustão, nem isso perdi. Há dois anos, num dia frio como hoje, perdi um pedaço e não sangrei. Não explodi em hemorragia que colorisse as paredes do aposento. Não caí e não me joguei. Foi mais como ruir para dentro. Ainda funciono, como um relógio funciona. Um relógio funciona, ainda que sem ponteiros. Mas não perdi ponteiros. Apenas não quero ver as horas. Num dia frio, como hoje, elas passam do mesmo modo como nos dias quentes. E não há novidade nisso. Perdi um pedaço e a conta dos pedaços que restaram não bate na contabilidade entre o que havia e o que, agora, há. Desmontei todas as peças, tudo se encaixa, nada sobrou e está tudo perfeito. Ao colocar na balança, falta algo e, ainda assim, o conjunto pesa mais do que no início. O que me faz concluir: seja lá o que perdi, era mais leve que o ar. Planava no peito, no sutil equilíbrio de correntes ascendentes, sem bater asas, sem propulsão. Deslizava em si mesmo, caudaloso. Não uma parte que existia, mas uma que, do nada, surgiu. Não congênita, mas adquirida, brotada, vital e viçosa, se enroscando por dentro com gavinhas e buscando o sol, enraizando-me no mundo, no lado de fora, nos outros. Ligando o ponto A interno com o ponto B externo. Como se, então, eu tivesse de aprender a andar sobre essa corda bamba imaginária com um par de pernas novo em folha e isso não fosse mau. Pois era o movimento do encontro. E, de repente, piso em falso. Não perdi, há dois anos, num dia frio como hoje, nada que eu de início tivesse, mas aquilo que passei a ter e, agora, não tenho mais. Não sou apenas a presença, mas também as lacunas, os trechos, os pontilhados, os vazados, o caule despetalado, a ponte levada pelas águas, os nomes omitidos, as pedras que não serviram para construir e voltaram para o rio, silenciosas sob as águas, a toca de bicho, abandonada, a órbita vazia sob o tapa-olho, o cômodo lacrado, a pele que sai com o curativo, tudo o que em mim também é ausência, tudo o que é silêncio, tudo o que era, não é mais e não mais será.

1 Comment

  1. Luiz Cláudio Santos de Souza Lima

    junho 29, 2014 at 11:43 am

    Impressionante. Arrebatador. Me sinto feliz por ter lido e ao mesmo tempo impressionado com tamanho sentimento demonstrado. Como gostaria de conhecer quem está por trás de tamanha expressão. Só tenho certeza que é capaz de sentir a vida como verdadeiro ser.

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