E a cada encontro eu contava a história da minha vida amorosa.
 
No primeiro encontro, eu não contei nada. Pois não tinha história a ser contada e eu não sabia contar histórias.
 
No segundo encontro, eu contei o primeiro. Como começou e como terminou. Contei mal, pois ainda não tinha prática.
 
No terceiro, contei o primeiro e o segundo. Como começaram e terminaram. Aí eu já sabia até escrever, inspirado por Leminski, Sabino, Drummond e outros.
 
E assim por diante. Ia tecendo a vida e os amores.
 
E, em vez de se afastarem – por saber como amei todas as anteriores e como fui feliz e também sofri por elas, as anteriores -, essas mulheres se apaixonavam por esse homem que tinha histórias. Que amava, que sofria, que podia amá-las e sofrer por elas também.
 
Mas, lá pelo trigésimo, as histórias ficaram muito longas.
 
Comecei a resumir, contar fora de ordem, misturar uma com a outra, como se uma fosse outra e outra fosse uma ou como se duas se reunissem numa única. Ou como se eu fosse vários que houvesse amado apenas uma.
 
E a cada novo encontro reconstruía uma nova mesma história a ser acrescentada na maçaroca de histórias amorosas.
 
Penso numa bola de neve, como se eu tivesse rolado ladeira abaixo e deixado me tocar por tudo isso, deixando que tudo se agregasse à minha vida.
 
Penso num desses filmes em que o herói tira a camisa e está cheio de cicatrizes. Um corpo, uma alma rabiscada com garranchos, filigranas, caligrafias, quelóides, buracos, inflamações.
 
Estou cansado de contar histórias. Estou cansado de que minhas cicatrizes contem histórias por mim.
 
Quero um fim.
 
Quero um encontro em que eu não conte nada. Que eu fique em silêncio. Que eu não me mostre e, ainda assim, a outra pessoa me veja integralmente.
 
Tá na hora de um the end.
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The end